19/05/2026

Coluna Vertebral #5: "Bata continência!"

 Tenho vindo a desenvolver alguns dos principais pilares ideológicos pelos quais guio a minha forma de ser e de encarar o Mundo, nestes últimos 6 meses que passei n’O Torgador. Os principais motores da minha escrita talvez sejam a defesa da dignidade do olhar comum, como explorei no artigo “Pela arte”, e a desconstrução de mecanismos de exclusão e controlo, que foi o tema da minha mais recente tese, “André Camarinha, o mais Patriota deles todos”. O que vos vou apresentar hoje é encarado por mim como o fecho desta trilogia de “aversão ao poder e desmontagem de hierarquias e ilusionismos”. Não prometo que não faça como o George Lucas, e volte a esmifrar este tema 16 anos depois, mas para já este será o meu “Regresso do Jedi”.

Proponho uma análise ao significado por trás das nomenclaturas e das patentes. No Mundo que construímos, a palavra “Doutor” ou “Excelência”, para dar dois exemplos, deixou de significar apenas um cargo, passando a carregar consigo uma exigência de submissão e transformando o seu detentor num “superior” por decreto. Ser-se tratado apenas pelo nome, ou sem todas as eminências que uma insígnia acarreta, é encarado como falta de respeito, o que, na verdade, apenas demonstra que estes termos são utilizados como um escudo para uma profunda insegurança e medo da insignificância. Recorrendo à analogia que utilizei nos outros dois artigos, da mesma forma que um diamante só vale algo porque queremos que ele valha, estas palavras são etiquetas vazias coladas na testa de pessoas comuns, e não lhes garantem qualquer valor intrínseco.

A sociedade é um organismo vivo, ao qual todos pertencemos e do qual todos somos peças. Da mesma forma que é verdade que um carro não anda sem motor, mas até o mais pequeno parafuso pode comprometer o seu funcionamento e ser o suficiente para tudo ficar parado, também na sociedade o Doutor e o Operário Fabril ocupam funções distintas, mas são igualmente vitais para que o sistema não colapse. Dê-se mérito onde há mérito para ser dado, valorize-se o esforço e o trabalho daqueles que lutaram para chegarem onde estão, mas tenha-se a consciência de que ter um diploma é apenas uma prova de especialização técnica, não um atestado de “sobre-humano”; é uma transação de conhecimento, não uma ascensão existencial. A meu ver, esta concepção está ainda mais presente no meio militar, em que muitas vezes aqueles que ocupam os lugares superiores na cadeia hierárquica acabam por se auto-legitimar na patente que lhes foi atribuída, ao mesmo tempo que se isolam numa “bolha protectora”. São tratados por “comandantes”, mas limitam-se a dar ordens aos seus subordinados, sem vestir a camisola e sem buscar o respeito ao estar ao seu lado “na trincheira”. Ser a autoridade máxima que dá a conhecer a patente ao invés do carácter não é característico de um líder, mas de um explorador.

Um dos principais motes que, acredito, é utilizado para justificar esta ideia de submissão às hierarquias, é o de que “o Trabalho dignifica o Homem”. Eu não concordo com esta tese, no sentido em que vejo o Trabalho como uma transação comercial, não como uma escala de valor humano. Alguém que trabalha não é, por esse simples facto, mais digno do que quem não trabalha. O Trabalho não é uma certificação de carácter nem um pedestal moral, porque o verdadeiro valor de um Ser Humano deve estar na sua bondade, na forma como trata os seus semelhantes e, acima de tudo, na recusa em maltratar ou explorar quem o rodeia. A ideia de que “morrer a trabalhar” é uma virtude não passa de uma manobra de marketing desta tal exploração, que apenas é uma convenção social usada para sustentar quem se vale do trabalho alheio e, tal como as patentes, manter a engrenagem a moer o cidadão comum.

Mas fica no ar a pergunta: se tudo isto é uma farsa ridícula, por que razão continuamos a participar nela? Em resposta a isto, eu levanto algumas hipóteses. A primeira é de que o sistema não se mantém apenas pela força de quem manda – seria uma imaturidade pensar isso -, mas sim pela inércia de quem obedece. O medo da exclusão e da punição, o comodismo – no sentido em que é mais fácil seguir o ritual do que questionar e confrontar – e o sentimento de impotência são, talvez, os principais motivos que nos levam a deixar andar. Aliado a isto, há também aquela velha ideia da Sociedade Meritocrata e da promessa de quem mais trabalha é quem mais vai gozar no futuro, que apenas redunda no sentimento generalizado de que a reverência prestada é um “investimento simbólico” no poder que se ambiciona exercer um dia. No final de contas, apenas se está a contribuir para a solidificação de um modelo de sociedade injusto em que, dia após dia, e parafraseando a banda de Axé “As Meninas” na música “Xibom Bombom”: “Analisando essa cadeia hereditária/Quero me livrar dessa situação precária/Onde o rico (cada vez fica mais rico)/E o pobre (cada vez fica mais pobre)”.

A concretização desta hierarquização forçada dá-se na encenação teatralizada de rituais ocos – como as paradas militares –, na atribuição de significado a símbolos vazios – como as patentes e os trajes académicos -, e na troca generalizada de “galhardetes”, tudo feito para criar a ilusão de importância e, na ausência de um propósito real, convencer o Mundo (e a eles próprios) de que aquilo que se está a fazer não é irrelevante.

Por tudo isto é que eu vejo a “desobediência” como um ato de rebeldia, mas principalmente como uma demonstração de lucidez. Desobedecer à autoridade que se baseia apenas na patente e exige respeito sem se dar ao respeito é, talvez, o mais alto grau de defesa da própria dignidade humana. Contaram-me, certa vez, a seguinte história: era uma vez um velho homem, desgostoso e claramente transtornado, que atribuía a sua infelicidade ao facto de não ter ninguém e ninguém lhe dar atenção. O homem em questão era um antigo Coronel do Exército Português. Não querendo minimizar a sua dor, uso esta pequena parábola para demonstrar, na prática, que um título garante obediência no local de trabalho, mas não compra companhia nem afecto. No fim da linha, um qualquer “Doutor” ou “Excelentíssimo Senhor”, outrora apupado e levado em braços, pode acabar sozinho num carro, provando que o carácter fala e sempre irá falar mais alto do que a farda. E assim como na Arte Institucional e na ideia de Pátria, estas hierarquias só continuam a existir porque nós decidimos dar-lhes importância. O poder vive da nossa crença e aprovação colectiva; a nossa liberdade começa quando deixamos de acreditar!



13/05/2026

Em Fátima, Rezei Por Ti...

 Olá, e sejam muito bem-vindos ao tão esperado regresso d’A Psique, numa edição especialíssima dedicada ao maior caso de sucesso do empreendedorismo Português, ao esquema mais bem montado da história recente da Igreja Católica ou, como Jesus gosta de lhe chamar, o Dia da Mãe…

A Nossa Senhora de Fátima era uma especialista em Marketing! Ter escolhido aparecer exactamente entre os meses de Maio e de Outubro, apanhando a época alta do Turismo e a única altura do ano em que se consegue estar minimamente confortável na Cova da Iria, foi uma jogada de mestre, uma vez que potenciou e muito o aumento do fluxo de peregrinos e excursionistas na zona, fazendo disparar a economia Oureense! Muito bem, Sra. Dona Fátima!

Por acaso, sempre tive um fascínio pela estória das Aparições, em particular pelo pormenor dos Segredos de Fátima. Recapitulando, conta-se que, nos idos de 1917, aparece uma Senhora no cimo de uma árvore, toda vestida de branco e envolta em luz, a três incautos pastorinhos que por ali andavam. Há lá umas interações entre eles e, ao longo dos 5 meses seguintes, ela revela-lhes 3 segredos. Infelizmente, dois dos pastorinhos, os irmãos Francisco e Jacinta, acabam por sucumbir, ainda menores, às mãos da Gripe Espanhola. Resta apenas a sua prima mais velha, Lúcia, que acaba por ser a única a ter o privilégio de evoluir para Irmã Lúcia. Anos mais tarde, e depois de descobrir que tem uma visão pior do que a do meu amigo Carlos Pereira (provavelmente, por causa da quantidade de tempo em que esteve a olhar para o Sol, naquele fatídico 13 de Outubro), começa a destapar o véu (no sentido figurado, que ela andava sempre bem tapadinha) e a deixar sair algumas informações acerca dos tão afamados segredos. Ora, é aqui que eu levanto um problema, por duas razões: primeiro, porque a Lúcia era a única testemunha viva das Aparições, pelo que poderia ter inventado o que lhe apetecesse e não havia ninguém que a pudesse contradizer com propriedade; e segundo, porque ela revelou as previsões de que a I Guerra Mundial ia acabar, de que ia haver uma II Guerra, e de que um Papa ia ser atacado DEPOIS de isso ter acontecido, o que faz dela não uma profeta, mas uma “pós-feta”! Eu imagino que tenha sido mais ou menos assim:

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(Irmã Lúcia está a sair de um carro)

Repórter – Irmã Lúcia, Irmã Lúcia! Será que nos poderia dizer quais foram os segredos que a Senhora de Fátima lhe contou?

Lúcia – Não, não pode ser! Como deve compreender, são segredos, não é? E os segredos não é para se contarem…

Repórter – Nem um?

Lúcia – Vá, pode ser um! O primeiro que ela disse foi sobre o Inferno, que existe Inferno.

Repórter – Então, mas isso já se sabia!

Lúcia – Não, julgava-se que existia, falava-se no assunto. Agora, certezas não havia, que nunca ninguém lá tinha ido! Ela veio foi dar a confirmação!

Repórter – Não nos pode mesmo dizer mais nenhum?

Lúcia – Não, mais não posso dizer!

(Ouve-se um homem a gritar ao fundo. A câmara vira-se para ele)

Homem – Olha! Então não é que a Alemanha invadiu a Polónia, dando assim início à II Guerra Mundial?

(A câmara volta a mostrar a Irmã Lúcia e o Repórter, que se vira para a frente para dar a notícia)

Repórter – Furo jornalístico: começou a II Guerra Mundial!

(A Irmã Lúcia toca no ombro do repórter)

Lúcia – Olhe, pronto… o segundo segredo era sobre isto, da II Guerra. Ela tinha dito que ia haver isto…

Repórter – E porque é que não avisou ninguém mais cedo?

Lúcia – Então, porque quer dizer… é segredo, não é? Os segredos não é para se dizerem…

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Assim também eu adivinho coisas, ó Lúcia! Porque eu também tenho uma ideia muito particular acerca dos profetas: eu acho que se alguma coisa que eles disseram, por um acaso do destino, acabar por se concretizar, as pessoas vão pensar “Olha que curioso, aconteceu mesmo aquilo que fulano tal tinha dito!”; se não se concretizar, também ninguém se vai lembrar disso! Olhem o Nostradamus: estima-se que mais de 95% das “previsões” que ele fez falharam, e ainda assim todos os anos há artigos do género “Veja o que Nostradamus previu para o ano de 2026. A número 5 vai deixar você aterrorizado!”. Ou isto, ou então acontece como os Simpsons, porque é óbvio que, depois de mais de 800 episódios a inventar situações, somos capazes de acertar uma coisinha ou outra!

Para terminar, gostava de falar dos caminhantes de Fátima. Por acaso, foi uma coisa que eu nunca entendi, esta das Peregrinações. Então quer dizer: vão milhares de pessoas a pé, durante dias e dias, para se penitenciarem em agradecimento ou punição… e vão em grupo, a cantar músicas, a comer bem, e a dormir confortavelmente em pousadas e hósteis? É pá, para penitências destas podem contar comigo! Se eu tenho sabido que era assim tão giro e que não tinha de me fustigar como aquele albino do Código Da Vinci, se calhar tinha-me mantido Católico, pá! Bom, agora é tarde demais…

Mas estes peregrinos não vêm de Fátima de mãos a abanar! Nada disso! Estes peregrinos trazem sempre souvenirs, que é algo fortíssimo lá em Fátima! Desde terços, a ímanes, a garrafinhas de água benta, àquelas câmaras-de-filmar de plástico em que se rodava a lente e dava para ver lá dentro um slideshow de fotos do Santuário, Fátima é perita no negócio do souvenir. Algo que eu sempre tive o sonho de receber, mas nunca recebi, foi uma daquelas T-shirts giras que dizem “A minha tia foi a Fátima e a única coisa que me trouxe foi esta T-shirt”. Em contrapartida, tenho toda uma coleção daquelas canetas que só escrevem nos primeiros 35 segundos de utilização, e que depois servem como decoração e como um lembrete de que alguém foi a Fátima e rezou por nós… Um beijinho, Tia Rosa!

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Cena Pós-Créditos:

(Vem um senhor, de colete-reflector e cajado na mão, a descer uma rua)

Repórter – Boa tarde!

Senhor – Boa tarde, menina!

Repórter – Vejo que está mesmo agora a chegar ao Santuário. O que me tem a dizer acerca desta experiência? É a primeira vez que vem em peregrinação até Fátima?

Senhor – A primeira? Não, longe disso! Eu, na verdade, venho cá a Fátima múltiplas vezes por ano!

Repórter – A sério! Louvo o seu nível de dedicação! Mas diga-me, de onde é que o senhor é?

Senhor – Eu? Sou daqui da Cova da Iria.

Repórter – Ah!... Então deve viver relativamente perto do Santuário…

Senhor – Sim, são sensivelmente 300, 350 metros.

Repórter – Mas vem cá por alguma razão especial?

Senhor – Sim, venho. Venho em sinal de agradecimento a Nossa Senhora, que tanto me tem dado ao longo da minha vida! E veja que eu trabalho mesmo na Cova, e venho cá de propósito para agradecer a Nossa Senhora de Fátima, tal é o grau da minha adoração!

Repórter – Pronto… Faça uma boa viagem!

Senhor – Obrigado, menina!

(O senhor vai-se afastando da repórter, mas a câmara segue-o à medida que ele vai entoando a música “A 13 de Maio na Cova da Iria”)