31/10/2026

Cativeiro (Guião)

 (O filme começa com a imagem de um homem a sintonizar um rádio, pousado em cima de um móvel, em que se começa a ouvir a voz de uma locutora a dar as notícias. Ele afasta-se e a imagem começa, lentamente, a afastar.)

Carolina (voz) – Boa tarde! Continua desaparecida a jovem estudante de 17 anos, Bárbara Ribeiro, que foi vista pela última vez numa localidade perto de Porto de Mós. As autoridades continuam as buscas, mas o Comandante da operação já veio dizer, num comunicado à imprensa, que será muito difícil encontrar a jovem ainda com vida.

(A imagem vai-se afastando do rádio e movendo pela sala, até encontrar o Guilherme de costas, a preparar comida numa tigela em cima de uma mesa. Ele move-se em direcção a uma cadeira, na frente da qual está Alice, amarrada e amordaçada. Ele senta-se e arranca a mordaça à Alice.)

Guilherme – Já viste? Estão a falar de ti na rádio. Os teus pais devem estar orgulhosos com toda esta notoriedade que estás a ter agora, e tudo graças a mim! Não falas? O gato comeu-te a língua, foi?

(Alice faz um ar meio entre o chateado e o assustado, olhando-o com a cabeça baixa.)

Guilherme – Depois admira-te! (pega numa colher de comida) Vá, toma!

(Alice resiste um pouco, Guilherme dá-lhe uma bofetada e enfia-lhe a comida na boca à força.)

Guilherme (continuando a dar-lhe a comida à boca) – Tu tens noção que só estás a tornar isto mais difícil para ti, certo? Para mim, é-me indiferente se tenho de te bater ou não!

(Alice volta a olhá-lo com desprezo, enquanto mastiga a comida contrariada. Guilherme pega num pano que tem no colo e limpa-lhe a boca.)

Guilherme – Tens de estar bem apresentável para ir ao baile, não é? (levanta-se para ir pousar a tigela)

Alice (a medo) – Hum… desculpe a minha curiosidade, mas eu ainda não sei o seu nome.

Guilherme – Para que é que queres saber isso?

Alice – Para nada… é só que, como vamos passar tanto tempo juntos, gostava de saber como é que você se chama…

Guilherme – Bom, acho que não tem mal se eu te disser. Afinal, não vais sair daqui, não é? (ri-se maniacamente) Chamo-me Caim, tal como o que matou Abel.

Alice – É um bonito nome, Caim!

Guilherme – Não me faz diferença. Afinal, os nomes só servem para distinguir as pessoas umas das outras, já que nós somos péssimos a memorizar coisas se não lhes associarmos uma palavra. Os seres-humanos são produtos incompletos e absurdamente imperfeitos, para coisas criadas por um ser Todo-Poderoso.

Alice – Sim, claro que sim. Mas Caim, conta-me mais sobre ti. Tens pais?

Guilherme – Para que é que queres saber sobre os meus pais?

Alice – Para te conhecer melhor.

Guilherme – Os meus pais morreram como cães num acidente automóvel, quando eu tinha 4 anos.

Alice – Desculpa! Os meus pêsames.

Guilherme – Pêsames para quê? Para te sentires melhor com a tua consciência? Pessoas nascem e morrem todos os dias, eles não foram excepção. Porque é que haveriam de ser mais importantes que o resto? Porque me fizeram? São só menos dois insignificantes seres a produzir CO2!

(Alice fica meio incomodada com a resposta, mas tenta-se recompor.)

Alice – Hum… E tens mais família?

Guilherme – A minha avó era uma submissa, o meu avô era um bêbado que lhe batia, nunca conheci os meus avós maternos e também não me faz diferença nenhuma. Tinha um irmão, mas morreu de tuberculose quando tinha 2 meses. A única pessoa que ainda está viva é a irmã do meu pai, que tem 84 anos e vive num lar. Interessa-te, toda esta informação?

Alice – Então estás completamente sozinho no Mundo, neste momento.

Guilherme – Sozinho? Alguma vez estamos acompanhados, sequer? E será isso desejável? Pessoas são apenas peso-morto, ainda estão melhor é mortas, que pelo menos fazem jus ao termo.

Alice – Diz-me: é por te sentires solitário que me raptaste? Para teres alguém por companhia?

Guilherme – Tu, por companhia? Que parte de não ser desejável relacionarmo-nos com pessoas é que não compreendeste?! E quê, achas que te raptei para fazeres de dama-de-companhia, foi? Achas que eu me importo contigo? Achas que tu és relevante, sua cabra? Então era para isto que querias saber sobre a minha vida, hein?

Alice – Não, não era nada disso!

Guilherme – Era para me tentares apanhar num momento de fraqueza? Então fica sabendo: eu não tenho momentos de fraqueza, todo eu sou indiferença perante o Mundo! Sabes para que é que eu te quero aqui? Para te torturar, matar, e livrar-me do teu corpo num mato qualquer longe daqui, como fiz com as 16 raparigas que aqui estiveram antes de ti. Já não te sentes tão especial agora, pois não?

(A Alice engole em seco, com um ar de medo, inclinando-se o mais que pode na sua cadeira. Ganha coragem para falar.)

Alice – O que é que tu ganhas com isso, hein? Tu és uma pessoa doente, um completo lunático!

Guilherme – Achas que eu sou lunático, é?

(Guilherme levanta-se, calmamente, e vai buscar uma faca ao balcão da cozinha. Alice fica cheia de medo. Guilherme aproxima-se dela e, com a mesma calma, procede ao corte da palma da sua própria mão, de forma lenta e profunda.)

Guilherme – E então? Continuas a achar que sou louco?

(Com calma, Guilherme vira-se, pousa a faca no balcão, e pega num trapo com que começa a enrolar a mão.)

Alice – Tu sabes que a polícia me vai encontrar e que vais ser preso, não sabes?

Guilherme – Isso era o que me diziam todas, e sabes onde é que elas estão agora? Pois!

Alice – Os meus pais nunca vão desistir de me procurar! Eles amam-me! Eles nunca me abandonariam!

(Guilherme dirige-se lentamente ao rádio. Sintoniza-o outra vez, até se apanhar as notícias de novo.)

Carolina (voz) – Os pais da jovem desaparecida fizeram declarações à imprensa, esta tarde.

Ema (voz) – Por mais que nos tenha custado, tendo em conta o estado da investigação e a baixa probabilidade de a nossa filha ser encontrada, achamos que a coisa mais sensata a fazer era assumir que não tornaremos a ver a nossa Bárbara, pelo que pedimos ao comandante da PJ que fossem encerradas as buscas.

(Guilherme desliga o rádio e olha para Alice com um ar de espanto.)

Guilherme – Que coincidência, hein? Era a tua mamã? Não me parece que esteja muito preocupada em encontrar-te, afinal!

(O semblante de Alice fica triste.)

Alice – Parece que estamos os dois sozinhos, neste Mundo…

Guilherme – Mas não por muito tempo…

(Guilherme aproxima-se de Alice com a faca na mão. Coloca-se atrás da cadeira dela, e ajoelha-se, de modo a ficar ao nível dela. Começa a passar-lhe a faca no rosto.)

Guilherme – Bárbara, Bárbara… Não é normal, mas até me estou a afeiçoar a ti, rapariga… Sabes que mais? Vou-te deixar decidir a forma como vais morrer!

(Passa-lhe a faca com rapidez na cara, fazendo-lhe um pequeno corte. Passa rapidamente para a frente dela.)

Guilherme – Desculpa, aleijei-te? Coitada!

(Alice olha-o com raiva no rosto. Guilherme aproxima a sua cara da cara dela.)

Guilherme – Na prisão, ninguém te pede desculpa! Prefiro que isto funcione como a prisão, OK?

(Alice dá-lhe uma cabeçada. Guilherme deita a mão à cabeça, com raiva.)

Guilherme – Sua grande vaca!

(Guilherme levanta-se, vai buscar uma bacia com água e pousa-a à frente de Alice. Desaperta as cordas que a mantêm presa à cadeira, ficando ainda com mãos e pés atadas. Agarra-lhe os cabelos, coloca-a de joelhos à força, e enfia-lhe a cabeça na bacia com água.)

Guilherme – Tu nunca mais me voltas a fazer uma coisa destas, estás a ouvir?! NUNCA MAIS! Sua pita mimada! Eu devia-te matar aqui e agora! Mas não, vou-te poupar. Tenho uma ideia melhor!

(Retira-lhe a cabeça da água. Ela recupera o fôlego. Fala-lhe perto da cara.)

Guilherme – Nunca mais me fazes isto! Ouviste?!

(Alice acena que sim com a cabeça.)

Guilherme – OUVISTE?!

Alice – Sim, sim!

Guilherme – Ainda bem!

(Torna a levantá-la, pelos cabelos, e senta-a na cadeira. De seguida, senta-se na cadeira dele.)

Guilherme – Diz-me uma coisa: porque é que eu haveria de ter vontade de te poupar, agora? Tu é que fizeste por isto!

Alice – Por favor, não me faça mal! Eu prometo que não conto nada a ninguém, se me libertar!

Guilherme – Blá! Blá! Blá! Tudo tretas! Prometes que não dizes nada a ninguém, mas mal te vês livre, vais logo fazer queixa à polícia! Eu conheço esse truque! Mas, por acaso, tens razão numa coisa: eu não te torno a fazer mal. E sabes porquê? Porque vais ser tu a tratar do assunto!

(Guilherme levanta-se e começa a desapertar as cordas que prendem os pés e as mãos de Alice.)

Alice – Como assim? O que é que me vai fazer?

(Guilherme volta ao seu lugar.)

Guilherme – Eu não te vou fazer nada. (pega na faca, que está no chão) Tu vais!

Alice – Não estou a perceber…

Guilherme – Eu quero que tu te esfaqueies a ti própria, até onde for possível. Quero-te ver a sofrer até ao teu último suspiro!

(Guilherme dá a faca à Alice, que a recebe com medo. Ambos de pé, a imagem vai alternando entre ele, com um ar doentio, e ela, assustada, com a faca na mão. Começa a aproximá-la ligeiramente da sua barriga. De repente, sem que nada o faça esperar, dá um pontapé no baixo-ventre de Guilherme, o que o faz cair ao chão a gemer de dor. Alice dá outro pontapé junto à cabeça dele, ficando este completamente deitado no chão. Pega na faca e começa a esfaqueá-lo na barriga, repetidas vezes.)

Alice – Morre, seu psicopata doente! Não tornas a fazer mal a ninguém!

(Quando Alice pára, a câmara foca na cara de Guilherme, que sorri, com a boca cheia de sangue, morrendo depois. Alice levanta-se, olha em volta e dirige-se à porta. Sai, olha uma última vez para trás e fecha a porta. Corta para preto. Fim!)



27/10/2026

Suspiro (Guião)

 (O filme começa com a Marisa a ir ao frigorífico a meio da noite. Quando fecha a porta, está lá o assassino mascarado, um homem alto e forte, que lhe corta, imediatamente, a goela. Tela preta, título do filme.

Logo de seguida, passa-se para uma transmissão do telejornal, com o pivô a anunciar um assassinato.)

Pivô – Esta manhã, uma mulher de 45 anos foi encontrada morta, na própria casa, na sequência daquilo que parece ter sido um homicídio planeado. A polícia ainda não tem nenhum suspeito, mas rejeita, para já, a possibilidade de termos em mãos um assassino em série.

(Ainda sendo possível ouvir o ruído do telejornal, a cena corta para um grupo de amigos, sentado no sofá a assistir a este anúncio.)

Alice – Já viram isto? Degolada na própria casa sem motivo aparente, e o assassino ainda anda aí à solta! Ui, que emoção! Parece que estamos num filme de terror!

Ema – Eu não gosto muito destas coisas! Ainda por cima é aqui na nossa zona, fico sempre com um bocado de medo!

Carolina – Pessoal, ideia excelente! Que me dizem de fazermos, já amanhã, um festa do pijama com direito a maratona de filmes de terror, em homenagem ao assassino misterioso?

Guilherme – É isso mesmo! Vera, e tem de ser em tua casa, que tu é que tens a televisão grande!

Alice – Oh, amanhã não dá, que os meus pais estão fora e tenho de ficar a tomar conta da minha irmã…

Carolina – Anda lá, tu consegues convencê-los! Diz que somos só nós, eles vão deixar de certeza! Afinal, oito olhos em cima de uma criança são sempre melhores que dois!

Alice – Está bem, eu falo com eles, mas sem compromisso!

(Os amigos continuam a falar, de forma gradualmente mais imperceptível, porque se vai começando a ouvir o barulho de um carro a trabalhar.

A cena corta para o Domingos a conduzir, tarde na noite. A dada altura, ele mexe no espelho retrovisor, e nele surge a máscara do assassino, no banco de trás. Ele olha para trás, com medo, e é degolado, da mesma forma que Marisa. A cabeça dele cai sobre o volante, acionando a buzina do carro.

Novo corte de cena abrupto para o dia seguinte, com um polícia na parte de fora do carro, a preencher uns papéis.)

Rui – Dois homicídios em dias seguidos, as vítimas foram mortas da mesma maneira, não há qualquer conexão entre elas… somos capazes de estar a começar a ter aqui um caso interessante!

(Corta para uma cena da Ema a falar por videochamada com a Carolina.)

Ema – Viste a notícia, Tânia? Houve mais um homicídio, um senhor que foi morto ao volante do próprio carro! Eu estou a começar a deixar de gostar disto, a sério!

Carolina – Sofia, relaxa, OK? Deve haver uma explicação para isto, não te preocupes! De certeza que é só um maluco qualquer a vingar-se dos bullies do Liceu, ou assim! Tem calma!

Ema – Ai, eu não sei! Será que não preciso mesmo de me preocupar?

Carolina – Claro que não! Ainda por cima hoje vais passar a noite connosco, estás segura! Vá, relaxa! Eu tenho que ir à minha vida. Beijinhos!

Ema – Beijinhos!

(A Ema desliga o telemóvel e pousa-o na cama. De repente, ouve barulhos na cozinha. Levanta-se, vai até lá, e vê, perto da janela, o assassino, de costas. Ele vira-se de repente, com uma faca na mão, e corre em direcção a ela. Ema grita por ajuda, enquanto corre e atira coisas ao assassino. Ela esconde-se atrás da cama, tensa, enquanto ouve os passos a aproximarem-se. Alguém bate à porta. Ema corre até lá, com um pau na mão, abre-a de rompante, e é Guilherme, que ela abraça com força.)

Guilherme – Ei, estás muito contente por me ver!

Ema – Obrigado, Francisco! Obrigado, mesmo!

Guilherme – O que é que foi?

Ema – O assassino… ele estava aqui!

Guilherme – Estás a gozar?

Ema – Não, eu juro! Ele estava aqui agora mesmo e acho que tu o afugentaste, a bateres à porta!

Guilherme – Então parece que fui o herói da história de hoje, hein? Mas tem calma, ele já não está aqui! Podes descansar, OK?

Ema – Ai, eu não consigo! Eu estou cheia de medo, por favor ajuda-me!

Guilherme – Não precisas de ter mais medo, OK? Eu vinha-te agora mesmo buscar para irmos andando para a casa da Vera, que ela pediu-me para ir mais cedo, para ajudar a preparar as coisas para logo. Vais deixar de estar sozinha, ele já não te vai fazer mal!

Ema – OK, obrigado!

(A cena fixa-se na cara de Ema, que está assustada, e há uma transição em fade para a cena deles, sentados no sofá a comer pipocas, enquanto veem o “Scream” na televisão.)

Guilherme – Bom, esta parte é mais chata, vou aproveitar para ir à casa-de-banho. Queres que deite um olho à Mariana?

Alice – Se não te importares, agradecia!

Guilherme – Claro que não!

(Guilherme sobe as escadas. Ao passar pelo quarto da Mariana, abre ligeiramente a porta e vê-a lá dentro a brincar.)

Guilherme – Então, Mariana? Está tudo bem?

Helena – Sim!

Guilherme – Estás a brincar a quê?

Helena – Às princesas. A Elsa matou a Rapunzel, como aquele senhor que deu na televisão!

Guilherme – Ah, está bem! Vá, diverte-te! (sai do quarto e fecha a porta atrás dele) Criança estranha!

(Entretanto, no andar de baixo, as amigas continuam a ver o filme. De repente, a televisão desliga-se.)

Ema – Então?!

Alice – Que estranho. Alguém carregou nalguma coisa?

(Quando Alice se levanta ir ver o que se passa com a televisão, a Carolina e a Ema veem, refletido na tela, a máscara do assassino. Olham para trás do sofá, assustadas, mas não está lá ninguém. Quando tornam a olhar para a frente, está lá o assassino, atrás da Alice. Ambas suspiram de susto. Alice, confusa, questiona-as.)

Alice – O que foi?

(O assassino agarra a Alice, tapa-lhe a boca e mete-lhe a faca à frente do pescoço. Alice fica assustada, mas dá-lhe um pontapé para trás. Ele cai, gemendo de dor.)

Carolina – Temos de sair daqui!

(As três saem a correr da sala. Carolina e Ema sobem as escadas, com o intuito de se esconderem num quarto. Alice vai em direcção à garagem. O assassino segue as primeiras duas.

Elas duas escondem-se atrás da cama, sentadas no chão. O assassino entra no quarto. Ao mesmo tempo, Alice procura algo para se defender na garagem, alumiando o que vê com a lanterna do telemóvel.)

Carolina (sussurrando) – Não faças barulho nenhum!

(A Ema começa a hiperventilar, o que chama a atenção do assassino, que salta por cima da cama para a frente delas. Ema dá-lhe um pontapé, mas o assassino agarra-lhe o pé. Carolina salta para o outro lado da cama, ao mesmo tempo que o assassino pega na Ema, a levanta, e lhe coloca uma faca encostada à barriga.)

Ema – Tânia, salva-te tu!

Carolina – Eu não te posso abandonar aqui!

Ema – Por favor!

(A Carolina, ainda que contrariada, acena que sim com a cabeça. Sai do quarto a correr. Ema é esfaqueada várias vezes na barriga e cai ao chão, morta. Carolina corre escada a baixo, usando o telemóvel para ligar à polícia.)

Carolina – Vá lá, atendam, por favor! Sim! Oh, obrigado! O meu nome é Tânia Neves, estou na Rua Leonardo DiCaprio, Nº 17, e está aqui o assassino mascarado! Por favor, venham rápido!

Polícia (som do telemóvel) – Estamos já a caminho!

(Carolina desliga o telemóvel, chega ao fim das escadas, e dá de caras com a Alice. Ambas se assustam e dão um grito.)

Alice – Tânia, estás bem!

Carolina – Sim, mas o assassino apanhou a Sofia!

Alice – Estás a falar a sério?

(A Carolina acena que sim, com tristeza no rosto. Ouvem-se, novamente, barulhos no andar de cima, e gritos de Guilherme. Ambas olham uma para a outra, Alice dá uma “arma” à Carolina, e sobem as escadas. Quando chegam lá, abrem a porta da casa-de-banho devagar, e dão de caras com o Guilherme, no chão, cheio de sangue nas mãos e no rosto.)

Alice – Francisco, o que te aconteceu? Onde está o assassino?

Guilherme – Acabou de fugir pela janela! Ele ia tentar matar-me, mas acho que os meus gritos por ajuda o assustaram!

Carolina – Mas ainda bem que estás bem!

Alice – Espera aí! A Mariana?

(Alice corre, preocupada, para o quarto da irmã de 6 anos, com medo que algo lhe tenha acontecido. Abre a porta de repente, e ela continua lá, a brincar com as bonecas.)

Alice – Ai, está tudo bem! Não saias daqui, está bem? Nós estamos só a tratar aqui de umas coisas.

Helena – OK, mana!

(Os três descem as escadas, Guilherme meio a mancar, e vão-se sentar na sala. Guilherme parece estranho, e todos se olham com desconfiança.)

Guilherme – Está tudo bem convosco?

Carolina – Sim, sim, está!

Guilherme – Vocês não acham que eu sou o assassino, pois não?

Alice – Não, claro que não! Que ideia parva, Francisco!

Guilherme – Pronto, ainda bem! Estava com medo disso.

Alice – Não, não, não… (finge mexer nos bolsos, como quem procura algo) O meu telemóvel… Acho que o deixei na cozinha!

Guilherme – Se quiseres, posso ir lá buscá-lo!

Alice – Obrigado, Francisco!

(Guilherme levanta-se para ir buscar o telemóvel. Entretanto, as duas amigas falam uma com a outra.)

Alice – Não achas estranho ele ser o único que não estava connosco quando apareceu o assassino?

Carolina – Sim, e mesmo aquilo de ele ter “fugido” quando nós chegamos à casa-de-banho não me pareceu muito convincente…

Alice – Tu achas que…

(A fala de Alice é interrompida pela chegada de Guilherme, a cambalear e com o telemóvel na mão. Ele fala de forma muito arrastada.)

Guilherme – Está aqui o teu telemóvel.

(Guilherme cospe sangue da boca, e a câmara desce, revelando um enorme corte na sua barriga. Volta a subir para o rosto. Guilherme cai e, atrás dele, está o assassino. As amigas entram em pânico. O assassino atira-se, de imediato, à Carolina, que estrebucha, mesmo com o assassino a esfaquear-lhe a barriga. Alice vai-lhe atirando coisas.)

Alice – Larga-a, seu psicopata!

(O assassino deixa a Carolina cair no chão, inconsciente. Aproxima-se de Alice, que vai recuando, até não conseguir mais, por ser travada pelo sofá.)

Alice – Por favor, não me faças mal!

Assassino (com a voz alterada) – Não te preocupes, não é preciso!

(O assassino deita as mãos à máscara, começando a retirá-la lentamente. A câmara foca em Alice, cujo ar de medo vai sendo substituído por uma expressão de surpresa. Quando volta de novo para o assassino, percebe-se que ele é a Helena, irmã mais nova da Alice.)

Helena – Olá, mana!

Alice – Mariana? Como foste capaz? Porque é que fizeste isto tudo?

Helena – Eu estava só a brincar, mana! Estava a ficar farta das minhas bonecas, apetecia-me brincar com alguém!

Alice (em choque) – Eu não acredito! Não pode ser verdade!

Helena – Também queres brincar comigo?

Alice – Não, por favor não!

(Começam a ouvir-se as sirenes da polícia.)

Helena – Bom, parece que a brincadeira vai ter de ficar para outro dia! Adeus, mana!

(Helena vira costas e dirige-se para a saída. A câmara torna a virar para a Alice, que permanece em estado de choque, e apenas consegue proferir umas palavras.)

Alice – Eu já não quero brincar mais…

(A tela corta para preto e fim!)



23/10/2026

Doble-6 (Guião)

 (Cena contínua, câmara vai rodando no centro dos actores; faz travagem abrupta na segunda vez que pára no Gui.)

Guilherme – Perceberam as regras?

Carolina – Desculpa, este jogo parece uma seca!

Alice – Anda lá, vai ser giro!

Ema – E pode ser que recebas uma visitinha, durante a noite!

Guilherme – Alguma de vocês tem perguntas?

(Acaba a cena contínua; foco em Alice. Depois da fala dela, a câmara vira rapidamente para Gui, de novo para Alice e, no fim, novamente para Gui.)

Alice – Mas o jogo está mesmo… amaldiçoado?

Guilherme – Quer dizer, o senhor da loja de antiguidades estava-me a tentar convencer que sim, mas é só a porcaria de um jogo! Claro que não está!

Alice (meia convencida, meia assustada) – OK…

Guilherme – Vamos a isto!

(Visão acima do tabuleiro de jogo. Vão lançado os dados e pegando nas cartas. Câmara vai subindo lentamente e rodando. Vão surgindo os nomes dos actores e, no fim, o título.)

Guilherme – Inês, é a tua vez.

Carolina (pega numa carta) –

“Na velha montanha dourada

Os cães ladram ao timbalão

A anciã melodia dos tambores

Salva os pobres de coração

 

Se a salvação pretenderes

O doble de 6 calhará

Mas se não for forte de alma

O jogador morrerá”

“Lance os dados. Para se salvar, terá de sair o doble de 6.” OK! (lança os dados e não sai D6)

Ema – Bom, parece que vais morrer!

(Todos riem da situação; Carolina com um riso nervoso, olhando em volta. Corta para uma cena de noite, com Carolina a sair da casa de banho para se ir deitar. Deita-se na cama e fecha os olhos. De trás dela, surge uma sombra. Foco na cara dela, com uma mão a surgir para lhe tapar a boca. Ela abre os olhos em pânico/surpresa. Corta para o dia seguinte, com o quarto dela fechado, com fitas da polícia, e o corpo metido dentro de um saco. Chega Guilherme.)

Guilherme – Então, o que aconteceu?

Alice – A polícia suspeita que tenha sido um homicídio, só que ainda não há certezas de nada. Mas quem é que iria fazer uma coisa destas à Inês?

Ema (em tom de gozo) – Pode ter sido alguma assombração, por causa do jogo de ontem!

Guilherme – Sim, está bem! A mim também me saiu uma carta a dizer que me ia crescer uma cauda e, até agora, nada! Mas que foi uma coincidência daquelas, foi!

Alice (olhando para dentro do quarto/começa com close-up, vai afastando) – Pobre Inês! Vais deixar saudades, miúda!

(Cena na casa de banho de Guilherme, com ele na sanita. Começam a ouvir-se sussurros.)

Carolina – Vasco! Vasco!

Guilherme – Quem está aí?

Carolina – Vasco!

Guilherme – Quem está aí, porra?

Carolina – Já não te lembras de mim, Vasco?

Guilherme – Não estou a gostar nada da brincadeira! Quem está aí?

Carolina – A sério que já não reconheces a voz da tua velha amiga Inês?

Guilherme – Mas… mas a Inês morreu!

Carolina – Será que morreu mesmo?

Guilherme – Claro que morreu! Eu vi o corpo dela com os meus próprios olhos!

(Algo que estava em cima do lavatório é atirado com violência para cima de Guilherme.)

Carolina – Estou morta, é isso?

Guilherme – O que é que se passa? AJUDA!

(Outra cena na cozinha de Ema, onde ela está a lanchar.)

Carolina – Já nem sequer me chamas para lanchar em tua casa, Laura?

Ema (a medo) – Inês? És tu?

Carolina – Claro, quem mais seria? A estúpida da Mónica? Ou a gorda da Fabiana? Ah, espera, tu és muito amiga delas, não és? Pode ser que tenhas uma surpresinha!...

Ema – Não, é impossível! Eu estou a alucinar! Tu não és real!

Carolina – Não sou real? Hum, vamos ver…

(Um pão começa a flutuar à frente da cara da Ema, que assiste perplexa. Corta para uma cena no quarto da Alice, que está deitada na cama.)

Carolina – Diana, só faltas tu.

(Alice olha em volta, meia confusa, mas pensa que não é nada.)

Carolina – Porra, Diana! Só me dás trabalho!

(Os lençóis da Alice começam a mexer-se loucamente, e ela começa aos gritos.)

Alice – AAAAAAHHHHHH!

(Todos os três encontram-se na rua. Vem um de cada lado e, quando chegam perto uns dos outros, dizem em uníssono…)

Todos – Temos de nos livrar da Inês!

(Cena contínua com Guilherme a remexer em coisas, gravada de dentro de vários móveis, com Ema e Alice atrás dele.)

Alice – Como assim o jogo é real?

Guilherme – Não sei, mas agora parece que vamos ter de lidar com ele!

Ema – Mas não tinhas dito que era tudo uma aldrabice?

Guilherme – Tinha, porque estava inteiramente convencido de que era! (pega na caixa do jogo; câmara passa para a parte de fora do móvel) E espero sinceramente que haja aqui alguma coisa que nos explique como se faz um exorcismo!

(Pegam na caixa e pousam-na na mesa. Guilherme começa a vasculhar, ainda com Alice e Ema atrás dele. Encontra o manual de instruções.)

Guilherme – OK. Exorcismos, exorcismos… Ah, aqui está! “Como fazer um exorcismo”! “Uma vez que todos os espíritos se comportam e manifestam de formas diferentes, cada exorcismo é um exorcismo. Desta feita, recomenda-se a visita ao xamã da Montanha Dourada.” (todos ficam confusos, Guilherme vira a página) Ah, está aqui a morada!

Alice – Não sabia que a Majora trabalhava com xamãs.

Ema – Isto é da Majora?

Guilherme – Garotas, foco! Temos que perceber como é que se chega a este xamã!

(Montagem dos três a caminharem pelo meio de matos, enquanto a voz de Guilherme a ler se ouve de fundo.)

Guilherme –

     “O caminho perdido terás de levar

     Se a resposta final quiseres encontrar

     Na cascata das ideias passa mansinho

     E chegarás por fim ao adivinho.”

 

Alice (já à porta do retiro do xamã) – Muito mais simples do que pensei que fosse!

Guilherme – OK, agora diz para bater três vezes na “árvore da sabedoria eterna”. (bate)

Rui – QUEM ME INCOMODA?

Guilherme (engolindo em seco) – Hum… Ele-Que-Tudo-Sabe, somos apenas um grupo de três jovens que vimos em busca de respostas, pois temos sido amaldiçoados pelo espírito da nossa amiga que faleceu!

Rui – Oh, então entrem! Pensei que fossem os gajos das operadoras!

(Os três trocam olhares de confusão e surpresa.)

Guilherme – Entraremos, sim!

(Lá dentro, deparam-se com Rui sentado com as pernas cruzadas, envergando colares e um chapéu cerimonial.)

Rui – Prazer em conhecer-vos! O meu nome é Marco, mas podem-me tratar por Pipas, que isso do “Ele-Que-Tudo-Sabe” já é antiquado. Então, ao que vêm?

Alice – Sr. Pipas, a nossa amiga Inês morreu depois de jogarmos ao “Sumpa”, aquele jogo de tabuleiro, e agora está-nos a amaldiçoar na nossa vida privada.

Rui – Pois, pois, pois… Um caso de possessão por intermédio de jogo… Isso é fácil de resolver, mas precisam de paciência!

Ema – Nós temos, diga-nos só como se faz, por favor!

Rui – OK, estejam atentos.

(A acompanhar a narração, surgem imagens dos jovens a fazer o que o xamã vai indicando.)

Rui – Primeiro, precisam de fazer um círculo de giz no chão, em frente a um espelho - não precisa de ser muito grande, só tem de caber lá dentro o tabuleiro de jogo. Depois, acendam uma vela entre o círculo e o espelho. Por fim, para invocarem o espírito da vossa amiga, tem de vos sair um doble de 6.

(Corta abruptamente para os jovens.)

Guilherme – Qual é a vossa fixação com o doble de 6?

Rui – Sei lá! É fixe, quando saem os dois dados iguais… Mas estava a dizer…

(Volta a cortar para a montagem.)

Rui – Lançam o doble de 6, e a vossa amiga surgirá!

(A voz do xamã esvai-se. Cena dos dados a saltar, intercalada com as caras de nervosismo dos três, até que foca de cima num doble de 6. Ventania e luzes a piscar, e surge o espírito à frente deles.)

Carolina (com a voz alterada e os olhos brancos) – QUEM ME INVOCA NUM DIA DESTES?!

(A imagem pára e ouve-se a voz da Ema.)

Ema – Espera aí! Mas e para a exorcizarmos, como é?

(Foca, de volta, na cara do xamã.)

Rui – Têm de a tentar convencer a deixar-vos em paz, não têm alternativa. Os espíritos tendem a não ir embora com grande facilidade, se não os levarmos com calma…

(Corta, novamente, para a cena do exorcismo.)

Alice – Inês, somos nós, os teus amigos!

Carolina – AMIGOS? EU NÃO TENHO AMIGOS!

Guilherme – Então porque é que nos tens andado sempre a aparecer?

Carolina – PORQUE VOS ODEIO! VOCÊS FIZERAM-ME A VIDA NEGRA DESDE O MOMENTO EM QUE VOS CONHECI! EU ERA SEMPRE O ALVO DE TUDO, ERA SEMPRE O BODE EXPIATÓRIO, MAS AGORA VOU-ME VINGAR!

Guilherme – Inês, isso não é verdade!

(A imagem pára e ouve-se a voz de Alice.)

Alice – Mas ela não pode simplesmente contra-atacar?

(Cara do xamã.)

Rui – Não, os espíritos não têm esse poder!

(Cena do exorcismo.)

Carolina – AI NÃO? ENTÃO VOU-TE PÔR UMA MALDIÇÃO! DE AQUI POR DIANTE, SEMPRE QUE FORES AO GINÁSIO, VAIS TER DE VER, MESMO SEM QUERERES, OS PÉNIS DE VÁRIOS SENHORES NO BALNEÁRIO!

Guilherme – Bom, isso também já acontece, portanto não é assim tão mau.

Ema – Eles têm assim tanto à-vontade?

Guilherme – Juro-te! Não percebo como é que eles andam ali de forma tão natural!

Carolina – SILÊNCIO! JÁ ME ESTOU A FARTAR DOS VOSSOS JOGUINHOS! ATÉ EU ME VINGAR POR COMPLETO, VOCÊS NUNCA SE VÃO VER LIVRES DE MIM, OU NÃO ME CHAME EU INÊS LEONOR DA SILVA FRANCO!

Alice – Mas tu não te chamas Inês Leonor. Tu és Inês Beatriz!

Carolina – UPS!

(O espírito explode e, no lugar dele, ficam apenas as suas roupas amontoadas no chão.)

Ema – Foi isto?

Alice – Eh, parece que sim…

Guilherme – Vamos comer qualquer coisa?

Ema – Vamos!

(Corta para uma cena dos três amigos num cemitério. Ouve-se a voz do xamã.)

Rui – E não se esqueçam do mais importante! Para manter o espírito da vossa amiga aprisionado, devem sempre ter uma vela acesa no seu jazigo! Só assim poderão ter a certeza de que ela não voltará para vos amaldiçoar!

(Guilherme pousa uma vela acesa no jazigo da amiga. A câmara acompanha todo o movimento, sem cortes, e eles ficam a ser filmados de baixo.)

Guilherme – Pronto, Inês! Já podes descansar em paz! Até um dia, amiga!

(Todos os três viram costas e começam a andar. Corta para a vela no sepulcro. Há uma rajada de vento que a apaga. De trás dela, pela terra, surge uma mão. Corta para preto. Fim!)