16/07/2026

Magazine Cultural #1: Unbearable Bear e a Obsessão com “Obsession”

"Obsession" seria uma anomalia cinematográfica, não tivesse esta primeira metade de 2026 sido pautada por filmes do subgénero "Terror independente feito por antigos YouTubers de comédia que não tiraram uma licenciatura em Cinema" - referindo-me, naturalmente, a "Iron Lung", do Markiplier, e a "Backrooms", do Kane Parsons (que já não tem 20 anos).

O enredo de "Obsession" é muito simples: Bear trabalha numa loja de música com os seus velhos amigos Ian, Sarah e Nikki, por quem está perdidamente apaixonado. Um dia, Bear chega a casa e dá com a sua gata, Sandy, morta, depois de ter comido os seus comprimidos para as dores. No dia seguinte, ao percebê-lo abatido, Nikki convence-o a sair. Bear vai tentar arranjar um presente para ela, numa loja de produtos místicos, e acaba por comprar o "One Wish Willow", um estranho artefacto que promete conceder um desejo - único e irreversível - à pessoa que o quebrar. Naturalmente, Bear deseja que Nikki o passe a amar mais do que qualquer pessoa no Mundo, algo que, para mal dos seus pecados, acaba por se concretizar.

Curry Barker presenteou o Mundo com uma história extremamente original, uma autêntica lufada de ar fresco, de que o público estava MESMO a precisar. Num saudável mix de terror e comédia, somos convidados a seguir a vida de Bear - o gajo mais egocentrado e cobarde no meio disto tudo - a descer pela espiral da loucura, e de Nikki, na sua involuntária jornada de autodestruição e crescente obsessão - por um gajo que, francamente, não a merece -, numa jogada de manipulação e lavagem cerebral que eu arriscaria descrever como uma violação clara dos termos da Convenção de Genebra. Curry Barker usou esta história como uma alegoria e uma demonstração na prática da velha máxima "Tem cuidado com aquilo que desejas".

Pontos altos, este filme tem bastantes, mas eu gostaria de destacar três em particular, cada um pelas suas razões (escusado será dizer que este parágrafo contém SPOILERS):

  • O primeiro seria o momento em que Bear se apercebe que já não aguenta mais a pressão de ter Nikki constantemente atrás dele, e liga para o número que está na embalagem do "One Wish Willow", apenas para receber a informação de que não é possível cancelar desejos, e que a única forma de reverter o efeito é convencendo outra pessoa a desejar a sua anulação, ou então falecendo (algo que se concretiza, na cena final do filme, com Bear a cometer suicídio nos braços de Nikki, que acorda da sua doentia hipnose em pânico por não saber onde está e o que lhe aconteceu);
  • O segundo momento é, justamente, a tentativa de Bear de convencer o seu amigo Ian de que o "One Wish Willow" é real, ao que Ian responde, com ceticismo, "Desejo ter mil milhões de dólares". O momento em que milhares de notas começam a cair do céu entre eles - e o olhar de incredulidade de Bear - é apenas mais uma prova do talento de Curry Barker para quebrar momentos de tensão com humor, mas sem comprometer o ritmo e o peso da cena;
  • Por fim, destaco duas situações que mostram a crescente obsessão de Nikki. A primeira passou-se na festa de Ian - para a qual Nikki não foi convidada, mas acabou por ir, após uma monumental birra -, quando Bear é desafiado a dar um beijo à pessoa que está à sua esquerda (no caso, a Sarah), e Nikki levanta-se e vai-se colocar entre eles, naquela que eu senti ser a cena que mais me provocou vergonha alheia e, simultaneamente, ansiedade. O outro momento é o violento homicídio de Sarah por Nikki, com a total obliteração do seu crânio contra o volante do carro no qual ela e Bear conversavam. Rápido, mas extremamente eficiente!
No entanto, o grande destaque deste filme é a formidável actuação de Inde Navarrette, jovem actriz que encarnou a personagem de Nikki com uma mestria que eu nem vos digo nada! Sinceramente, nunca pensei ter tanto medo de uma menina bonita. Que comece IMEDIATAMENTE uma intensa campanha ao Óscar para esta senhora, se faz favor!

Para terminar, gostava de dizer que vi muita gente a argumentar, nas redes sociais, que se tinha evitado todo este drama e tragédia se o Bear não tivesse sido estúpido, e simplesmente tivesse pedido a Nikki em namoro, sem o recurso a magia negra. Sim, e se a Sophie do "Mamma Mia!" tivesse feito um teste de ADN, também se descobria logo qual dos três era o pai dela! É pá, vocês são mesmo aborrecidos...


Nota final do Letterboxd:
⭐⭐⭐⭐



11/07/2026

Desconstruindo Guilherme (Guião)

 (O filme começa com o som de uma multidão. A imagem aparece e vê-se a nuca de Guilherme, preparado para entrar no seu quarto. A câmara move-se para a esquerda, vendo-se o seu perfil, parcamente alumiado. Guilherme respira fundo e entra no seu quarto – nunca se vê o seu interior -, de onde sai uma forte luz, aumentando o som da multidão. A imagem corta para preto e surge o nome do filme. Começam a ouvir-se sons de hospital. Aparece o texto “2006”. Vê-se um médico a cortar a “barriga” com um bisturi. Muita luz no consultório, apenas se vê a silhueta do doutor.)

 

Médico – Podes registar aí que é um rapaz, e que rapaz! Este vai ser dos grandes, hein? Os meus parabéns, Dona Andreia. E promete, o puto. Já estou a ver que… ui!

 

(O médico retira um caderno de dentro da barriga.)

 

Médico – Exactamente o que eu estava a pensar. Vai-lhe sair daqui um artista, minha senhora… Só nos temos a desculpar por isso. Pelo ar, vai ser daqueles que até parece que vão dar cartas em Direito ou coisa assim, mas que no fim de contas vai desiludir toda a gente com um curso que não dá futuro a ninguém! Raios partam a canalha, não é? Quer que o afogue?

 

(A imagem corta para preto. Começa a ouvir-se o narrador enquanto, no fundo, se vêm imagens do médico a fazer caretas para o Guilherme.)

 

Narrador – Nasci com 3,700kg, meio metro e mais umas quantas características que me aproximavam mais de um leitão do que de um filhote de Homem. Os primeiros meses até foram interessantes: aprendi a falar com 9 meses (curto vídeo do Guilherme, sentado no chão em frente ao sofá a brincar, parando de repente e dizendo “Papá”, voltando de seguida à brincadeira), comecei a comer sozinho com 13 (vídeo do Guilherme todo sujo de banana)… já andar foi uma tarefa mais complicada, mas lá percebi o sistema daquilo (vídeo do ponto de vista do Guilherme, a andar pela casa com uma faca na mão). Crescer era, sem dúvida, a coisa mais fascinante do Mundo!

 

(Aparece o texto “2010”. O vídeo é de Guilherme, na cama dos pais, com um livro na mão.)

 

Narrador – 2010 foi um ano de mudança, porque representou o culminar da minha fase de auto-didacta. É verdade, foi nesse ano que li pela primeira vez na minha curta vida, sem qualquer tipo de influência externa. Menino prodígio é pouco!

 

(O vídeo é de Guilherme a ler um complicadíssimo excerto de um livro, ouvindo-se um aplauso e sendo-lhe atiradas flores no final. Aparece o texto “2011”. O vídeo é de Guilherme, sentado no chão a olhar para a câmara, recebendo em braços uma manta enrolada nalgo insultuoso)

 

Narrador – Em 2011 perdi um pouco do meu protagonismo e da minha alegria.

Pai – Guilherme, esta é a tua irmã.

 

(Guilherme solta uma pequena lágrima.)

 

Narrador – Felizmente, foi também um ano extremamente combativo, em que lancei o meu primeiro movimento “O Gui Quer Ir Trabalhar Para A Galp”. Com pena minha, não deu em nada, mas contou a intenção e o quanto eu macei todos os membros da minha família imediata.

 

(Imagens de Guilherme com um cartaz nas mãos a gritar “O Gui Quer Ir Trabalhar Para A Galp”! Aparece o texto “2012”. O vídeo é de Guilherme, deitado no chão, com a Handycam da Sony à sua frente.)

 

Narrador – O Canal Gui surgiu em 2012, com o super-êxito do Cinema Nacional – infelizmente perdido para o tempo – “Os Smurfs”. (aparece uma foto dos bastidores desse filme) Foi também neste ano que assinei o contracto de quatro anos com o Patronato Nun’Álvares Pereira, tendo sido convidado pela Presidente do Clube, a Professora Alice, a frequentar a equipa do 2º ano, oferta que prontamente recusei.

 

(Imagens de Guilherme com um livro do Alfa nas mãos, sobre um fundo com vários símbolos do Patronato e da Super Bock, etc., vários flashes de câmara na tela. Surge o texto “2014”. Vídeo de Guilherme sentado numa poltrona, de microfone na mão, com uma mesinha ao lado, onde está pousado um livro.)

 

Guilherme – É com grande apreço que vos apresento este meu primeiro volume, “Coisas Sobre Mim”, que foi escrito ao longo deste último ano da minha vida que, como alguns devem saber, foi dos mais emocionantes. Este livro fala um pouco de mim, das minhas vivências, do meu crescimento, mas também de um plano mais metafísico, em que abordo temas como os meus traumas, medos, ideias… bom, não quero estar a expor muitos pormenores, para não estragar a experiência dos leitores. Alguém tem questões?

 

(O vídeo corta. Surge o texto “2015”. A imagem é de Guilherme a descer a rua, quando é interpelado por uma repórter.)

 

Repórter – Guilherme Gomes, Guilherme Gomes. Como reage às críticas que está a receber ao seu filme “O Roubo do Quadro”?

Guilherme – Reajo com a superioridade e a indiferença que um homem público tem de ter.

Repórter – Mas porque é que resolveu fazer o filme assim?

Guilherme – Porque não o pude fazer assado.

Repórter – Quem é que não o deixou fazer assado?

Guilherme – Ah, eu não posso permitir certas coisas. Não estamos a brincar com coisas sérias!

Repórter – Dizem as más línguas que este filme foi uma tentativa frustrada da sua parte.

Guilherme – Eu quero que as más línguas se fodam! Ponto final, parágrafo!

Repórter – E acha que o público Português reagiu bem a esta estreia?

Guilherme – Eu quero que o público Português se foda! E assim sucessivamente.

 

(O vídeo corta para Guilherme na cama a falar com o Smurf. O plano é de cima.)

 

Guilherme – Porque é que me decidiram perseguir a mim agora? Achas que foi por causa das alegações? Tu sabes que nós só tiramos aquela foto com o Epstein porque ele nos pediu com jeitinho! Ou será que descobriram a minha posição em relação ao estado-terrorista de Israel? Ai, ai, Smurf… Não nos estou a ver a sair desta…

 

(Surge o texto “2019”. Guilherme aparece com uma guitarra na mão, um bombo ao lado e um bloco de notas em cima do joelho. Está a escrever o primeiro grande êxito dos Cantores Primários “Ser Bom Cozinheiro”. A imagem corta para Guilherme num concerto – áudio do “Cantores Primários AO VIVO!!!”. Corta para Guilherme, de camisa aberta, marcas de batom e cabelo desajeitado - a entrar na traseira de um carro e a dizer ao motorista para arrancar – ouvem-se gritos de fãs. Surge o texto “2022”.)

 

Narrador – 2022 marcou o ponto de viragem da minha carreira. Nada seria igual depois daquela fatídica noite de insónia…

 

(Guilherme surge deitado na cama, a olhar para o tecto. Pega no relógio que está em cima da mesinha de cabeceira.)

 

Guilherme – 07:02h e nada. Pff… Tenho de me entreter com alguma coisa!

 

(Guilherme levanta-se da cama e abre o computador. Abre um Word e começa a escrever.)

 

Narrador – E é assim que nascem as lendas. Em pouco mais de 20 minutos escrevi um texto sobre palavras ridículas que ficou tão bom, que eu acreditei que tinha de ser visto pelo Mundo inteiro. E que melhor forma de o fazer do que criando um blogue! Foi assim que nasceu “A Psique de Guilherme” e o resto? É história!...

 

(Montagem de vídeos. Primeiro vídeo de Guilherme a finalizar a imagem do “Há certas e determinadas palavras que pronto, não é?” no Photoshop.
Segundo vídeo de Guilherme a gravar a mítica abertura da máquina de escrever.
Terceiro vídeo de Guilherme a montar o estaminé com a Webcam com que gravou o primeiro vídeo.
Quarto, rápida montagem das costas de Guilherme com as diferentes T-shirts com que gravou os primeiros vídeos do canal.
Tela preta. Surge o texto “2026”.
Quinto vídeo, regresso ao início, Guilherme a entrar no quarto, sons da multidão a acalmarem. Carrega no ecrã do telemóvel, já montado no tripé, e começa a falar.)

 

Guilherme – Olá, pessoas! Tudo bem com vocês? Espero que sim! Sejam bem-vindos a mais uma crónica d’A Psique, desta vez extremamente especial!

 

(Guilherme acaba de falar, vai até ao telemóvel e corta o vídeo. Tela preta. Mensagem de “Parabéns à Psique”. Fim.)