27/10/2026

Suspiro (Guião)

 (O filme começa com a Marisa a ir ao frigorífico a meio da noite. Quando fecha a porta, está lá o assassino mascarado, um homem alto e forte, que lhe corta, imediatamente, a goela. Tela preta, título do filme.

Logo de seguida, passa-se para uma transmissão do telejornal, com o pivô a anunciar um assassinato.)

Pivô – Esta manhã, uma mulher de 45 anos foi encontrada morta, na própria casa, na sequência daquilo que parece ter sido um homicídio planeado. A polícia ainda não tem nenhum suspeito, mas rejeita, para já, a possibilidade de termos em mãos um assassino em série.

(Ainda sendo possível ouvir o ruído do telejornal, a cena corta para um grupo de amigos, sentado no sofá a assistir a este anúncio.)

Alice – Já viram isto? Degolada na própria casa sem motivo aparente, e o assassino ainda anda aí à solta! Ui, que emoção! Parece que estamos num filme de terror!

Ema – Eu não gosto muito destas coisas! Ainda por cima é aqui na nossa zona, fico sempre com um bocado de medo!

Carolina – Pessoal, ideia excelente! Que me dizem de fazermos, já amanhã, um festa do pijama com direito a maratona de filmes de terror, em homenagem ao assassino misterioso?

Guilherme – É isso mesmo! Vera, e tem de ser em tua casa, que tu é que tens a televisão grande!

Alice – Oh, amanhã não dá, que os meus pais estão fora e tenho de ficar a tomar conta da minha irmã…

Carolina – Anda lá, tu consegues convencê-los! Diz que somos só nós, eles vão deixar de certeza! Afinal, oito olhos em cima de uma criança são sempre melhores que dois!

Alice – Está bem, eu falo com eles, mas sem compromisso!

(Os amigos continuam a falar, de forma gradualmente mais imperceptível, porque se vai começando a ouvir o barulho de um carro a trabalhar.

A cena corta para o Domingos a conduzir, tarde na noite. A dada altura, ele mexe no espelho retrovisor, e nele surge a máscara do assassino, no banco de trás. Ele olha para trás, com medo, e é degolado, da mesma forma que Marisa. A cabeça dele cai sobre o volante, acionando a buzina do carro.

Novo corte de cena abrupto para o dia seguinte, com um polícia na parte de fora do carro, a preencher uns papéis.)

Rui – Dois homicídios em dias seguidos, as vítimas foram mortas da mesma maneira, não há qualquer conexão entre elas… somos capazes de estar a começar a ter aqui um caso interessante!

(Corta para uma cena da Ema a falar por videochamada com a Carolina.)

Ema – Viste a notícia, Tânia? Houve mais um homicídio, um senhor que foi morto ao volante do próprio carro! Eu estou a começar a deixar de gostar disto, a sério!

Carolina – Sofia, relaxa, OK? Deve haver uma explicação para isto, não te preocupes! De certeza que é só um maluco qualquer a vingar-se dos bullies do Liceu, ou assim! Tem calma!

Ema – Ai, eu não sei! Será que não preciso mesmo de me preocupar?

Carolina – Claro que não! Ainda por cima hoje vais passar a noite connosco, estás segura! Vá, relaxa! Eu tenho que ir à minha vida. Beijinhos!

Ema – Beijinhos!

(A Ema desliga o telemóvel e pousa-o na cama. De repente, ouve barulhos na cozinha. Levanta-se, vai até lá, e vê, perto da janela, o assassino, de costas. Ele vira-se de repente, com uma faca na mão, e corre em direcção a ela. Ema grita por ajuda, enquanto corre e atira coisas ao assassino. Ela esconde-se atrás da cama, tensa, enquanto ouve os passos a aproximarem-se. Alguém bate à porta. Ema corre até lá, com um pau na mão, abre-a de rompante, e é Guilherme, que ela abraça com força.)

Guilherme – Ei, estás muito contente por me ver!

Ema – Obrigado, Francisco! Obrigado, mesmo!

Guilherme – O que é que foi?

Ema – O assassino… ele estava aqui!

Guilherme – Estás a gozar?

Ema – Não, eu juro! Ele estava aqui agora mesmo e acho que tu o afugentaste, a bateres à porta!

Guilherme – Então parece que fui o herói da história de hoje, hein? Mas tem calma, ele já não está aqui! Podes descansar, OK?

Ema – Ai, eu não consigo! Eu estou cheia de medo, por favor ajuda-me!

Guilherme – Não precisas de ter mais medo, OK? Eu vinha-te agora mesmo buscar para irmos andando para a casa da Vera, que ela pediu-me para ir mais cedo, para ajudar a preparar as coisas para logo. Vais deixar de estar sozinha, ele já não te vai fazer mal!

Ema – OK, obrigado!

(A cena fixa-se na cara de Ema, que está assustada, e há uma transição em fade para a cena deles, sentados no sofá a comer pipocas, enquanto veem o “Scream” na televisão.)

Guilherme – Bom, esta parte é mais chata, vou aproveitar para ir à casa-de-banho. Queres que deite um olho à Mariana?

Alice – Se não te importares, agradecia!

Guilherme – Claro que não!

(Guilherme sobe as escadas. Ao passar pelo quarto da Mariana, abre ligeiramente a porta e vê-a lá dentro a brincar.)

Guilherme – Então, Mariana? Está tudo bem?

Helena – Sim!

Guilherme – Estás a brincar a quê?

Helena – Às princesas. A Elsa matou a Rapunzel, como aquele senhor que deu na televisão!

Guilherme – Ah, está bem! Vá, diverte-te! (sai do quarto e fecha a porta atrás dele) Criança estranha!

(Entretanto, no andar de baixo, as amigas continuam a ver o filme. De repente, a televisão desliga-se.)

Ema – Então?!

Alice – Que estranho. Alguém carregou nalguma coisa?

(Quando Alice se levanta ir ver o que se passa com a televisão, a Carolina e a Ema veem, refletido na tela, a máscara do assassino. Olham para trás do sofá, assustadas, mas não está lá ninguém. Quando tornam a olhar para a frente, está lá o assassino, atrás da Alice. Ambas suspiram de susto. Alice, confusa, questiona-as.)

Alice – O que foi?

(O assassino agarra a Alice, tapa-lhe a boca e mete-lhe a faca à frente do pescoço. Alice fica assustada, mas dá-lhe um pontapé para trás. Ele cai, gemendo de dor.)

Carolina – Temos de sair daqui!

(As três saem a correr da sala. Carolina e Ema sobem as escadas, com o intuito de se esconderem num quarto. Alice vai em direcção à garagem. O assassino segue as primeiras duas.

Elas duas escondem-se atrás da cama, sentadas no chão. O assassino entra no quarto. Ao mesmo tempo, Alice procura algo para se defender na garagem, alumiando o que vê com a lanterna do telemóvel.)

Carolina (sussurrando) – Não faças barulho nenhum!

(A Ema começa a hiperventilar, o que chama a atenção do assassino, que salta por cima da cama para a frente delas. Ema dá-lhe um pontapé, mas o assassino agarra-lhe o pé. Carolina salta para o outro lado da cama, ao mesmo tempo que o assassino pega na Ema, a levanta, e lhe coloca uma faca encostada à barriga.)

Ema – Tânia, salva-te tu!

Carolina – Eu não te posso abandonar aqui!

Ema – Por favor!

(A Carolina, ainda que contrariada, acena que sim com a cabeça. Sai do quarto a correr. Ema é esfaqueada várias vezes na barriga e cai ao chão, morta. Carolina corre escada a baixo, usando o telemóvel para ligar à polícia.)

Carolina – Vá lá, atendam, por favor! Sim! Oh, obrigado! O meu nome é Tânia Neves, estou na Rua Leonardo DiCaprio, Nº 17, e está aqui o assassino mascarado! Por favor, venham rápido!

Polícia (som do telemóvel) – Estamos já a caminho!

(Carolina desliga o telemóvel, chega ao fim das escadas, e dá de caras com a Alice. Ambas se assustam e dão um grito.)

Alice – Tânia, estás bem!

Carolina – Sim, mas o assassino apanhou a Sofia!

Alice – Estás a falar a sério?

(A Carolina acena que sim, com tristeza no rosto. Ouvem-se, novamente, barulhos no andar de cima, e gritos de Guilherme. Ambas olham uma para a outra, Alice dá uma “arma” à Carolina, e sobem as escadas. Quando chegam lá, abrem a porta da casa-de-banho devagar, e dão de caras com o Guilherme, no chão, cheio de sangue nas mãos e no rosto.)

Alice – Francisco, o que te aconteceu? Onde está o assassino?

Guilherme – Acabou de fugir pela janela! Ele ia tentar matar-me, mas acho que os meus gritos por ajuda o assustaram!

Carolina – Mas ainda bem que estás bem!

Alice – Espera aí! A Mariana?

(Alice corre, preocupada, para o quarto da irmã de 6 anos, com medo que algo lhe tenha acontecido. Abre a porta de repente, e ela continua lá, a brincar com as bonecas.)

Alice – Ai, está tudo bem! Não saias daqui, está bem? Nós estamos só a tratar aqui de umas coisas.

Helena – OK, mana!

(Os três descem as escadas, Guilherme meio a mancar, e vão-se sentar na sala. Guilherme parece estranho, e todos se olham com desconfiança.)

Guilherme – Está tudo bem convosco?

Carolina – Sim, sim, está!

Guilherme – Vocês não acham que eu sou o assassino, pois não?

Alice – Não, claro que não! Que ideia parva, Francisco!

Guilherme – Pronto, ainda bem! Estava com medo disso.

Alice – Não, não, não… (finge mexer nos bolsos, como quem procura algo) O meu telemóvel… Acho que o deixei na cozinha!

Guilherme – Se quiseres, posso ir lá buscá-lo!

Alice – Obrigado, Francisco!

(Guilherme levanta-se para ir buscar o telemóvel. Entretanto, as duas amigas falam uma com a outra.)

Alice – Não achas estranho ele ser o único que não estava connosco quando apareceu o assassino?

Carolina – Sim, e mesmo aquilo de ele ter “fugido” quando nós chegamos à casa-de-banho não me pareceu muito convincente…

Alice – Tu achas que…

(A fala de Alice é interrompida pela chegada de Guilherme, a cambalear e com o telemóvel na mão. Ele fala de forma muito arrastada.)

Guilherme – Está aqui o teu telemóvel.

(Guilherme cospe sangue da boca, e a câmara desce, revelando um enorme corte na sua barriga. Volta a subir para o rosto. Guilherme cai e, atrás dele, está o assassino. As amigas entram em pânico. O assassino atira-se, de imediato, à Carolina, que estrebucha, mesmo com o assassino a esfaquear-lhe a barriga. Alice vai-lhe atirando coisas.)

Alice – Larga-a, seu psicopata!

(O assassino deixa a Carolina cair no chão, inconsciente. Aproxima-se de Alice, que vai recuando, até não conseguir mais, por ser travada pelo sofá.)

Alice – Por favor, não me faças mal!

Assassino (com a voz alterada) – Não te preocupes, não é preciso!

(O assassino deita as mãos à máscara, começando a retirá-la lentamente. A câmara foca em Alice, cujo ar de medo vai sendo substituído por uma expressão de surpresa. Quando volta de novo para o assassino, percebe-se que ele é a Helena, irmã mais nova da Alice.)

Helena – Olá, mana!

Alice – Mariana? Como foste capaz? Porque é que fizeste isto tudo?

Helena – Eu estava só a brincar, mana! Estava a ficar farta das minhas bonecas, apetecia-me brincar com alguém!

Alice (em choque) – Eu não acredito! Não pode ser verdade!

Helena – Também queres brincar comigo?

Alice – Não, por favor não!

(Começam a ouvir-se as sirenes da polícia.)

Helena – Bom, parece que a brincadeira vai ter de ficar para outro dia! Adeus, mana!

(Helena vira costas e dirige-se para a saída. A câmara torna a virar para a Alice, que permanece em estado de choque, e apenas consegue proferir umas palavras.)

Alice – Eu já não quero brincar mais…

(A tela corta para preto e fim!)



1 comentário:

  1. sinto-me: Esfaqueado e stressado para a frequência que vou ter dentro de umas horas...
    música: Nick Cave And The Bad Seeds - Right Red Hand

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