(O filme começa com o som de uma multidão. A imagem aparece e vê-se a nuca de Guilherme, preparado para entrar no seu quarto. A câmara move-se para a esquerda, vendo-se o seu perfil, parcamente alumiado. Guilherme respira fundo e entra no seu quarto – nunca se vê o seu interior -, de onde sai uma forte luz, aumentando o som da multidão. A imagem corta para preto e surge o nome do filme. Começam a ouvir-se sons de hospital. Aparece o texto “2006”. Vê-se um médico a cortar a “barriga” com um bisturi. Muita luz no consultório, apenas se vê a silhueta do doutor.)
Médico – Podes
registar aí que é um rapaz, e que rapaz! Este vai ser dos grandes, hein? Os
meus parabéns, Dona Andreia. E promete, o puto. Já estou a ver que… ui!
(O médico retira um caderno de
dentro da barriga.)
Médico – Exactamente
o que eu estava a pensar. Vai-lhe sair daqui um artista, minha senhora… Só nos
temos a desculpar por isso. Pelo ar, vai ser daqueles que até parece que vão
dar cartas em Direito ou coisa assim, mas que no fim de contas vai desiludir
toda a gente com um curso que não dá futuro a ninguém! Raios partam a canalha,
não é? Quer que o afogue?
(A imagem corta para preto.
Começa a ouvir-se o narrador enquanto, no fundo, se vêm imagens do médico a
fazer caretas para o Guilherme.)
Narrador – Nasci com
3,700kg, meio metro e mais umas quantas características que me aproximavam mais
de um leitão do que de um filhote de Homem. Os primeiros meses até foram
interessantes: aprendi a falar com 9 meses (curto vídeo do Guilherme,
sentado no chão em frente ao sofá a brincar, parando de repente e dizendo
“Papá”, voltando de seguida à brincadeira), comecei a comer sozinho com
13 (vídeo do Guilherme todo sujo de banana)… já andar foi uma
tarefa mais complicada, mas lá percebi o sistema daquilo (vídeo do ponto
de vista do Guilherme, a andar pela casa com uma faca na mão). Crescer
era, sem dúvida, a coisa mais fascinante do Mundo!
(Aparece o texto “2010”. O vídeo
é de Guilherme, na cama dos pais, com um livro na mão.)
Narrador – 2010 foi um
ano de mudança, porque representou o culminar da minha fase de auto-didacta. É
verdade, foi nesse ano que li pela primeira vez na minha curta vida, sem
qualquer tipo de influência externa. Menino prodígio é pouco!
(O vídeo é de Guilherme a ler um
complicadíssimo excerto de um livro, ouvindo-se um aplauso e sendo-lhe atiradas
flores no final. Aparece o texto “2011”. O vídeo é de Guilherme, sentado
no chão a olhar para a câmara, recebendo em braços uma manta enrolada nalgo
insultuoso)
Narrador – Em 2011
perdi um pouco do meu protagonismo e da minha alegria.
Pai – Guilherme,
esta é a tua irmã.
(Guilherme solta uma pequena
lágrima.)
Narrador – Felizmente,
foi também um ano extremamente combativo, em que lancei o meu primeiro
movimento “O Gui Quer Ir Trabalhar Para A Galp”. Com pena minha, não deu em
nada, mas contou a intenção e o quanto eu macei todos os membros da minha
família imediata.
(Imagens de Guilherme com um cartaz
nas mãos a gritar “O Gui Quer Ir Trabalhar Para A Galp”! Aparece o texto
“2012”. O vídeo é de Guilherme, deitado no chão, com a Handycam da Sony à sua
frente.)
Narrador – O Canal Gui
surgiu em 2012, com o super-êxito do Cinema Nacional – infelizmente perdido
para o tempo – “Os Smurfs”. (aparece uma foto dos bastidores desse filme)
Foi também neste ano que assinei o contracto de quatro anos com o Patronato
Nun’Álvares Pereira, tendo sido convidado pela Presidente do Clube, a
Professora Alice, a frequentar a equipa do 2º ano, oferta que prontamente
recusei.
(Imagens de Guilherme com um livro
do Alfa nas mãos, sobre um fundo com vários símbolos do Patronato e da Super
Bock, etc., vários flashes de câmara na tela. Surge o texto “2014”. Vídeo de
Guilherme sentado numa poltrona, de microfone na mão, com uma mesinha ao lado,
onde está pousado um livro.)
Guilherme – É com
grande apreço que vos apresento este meu primeiro volume, “Coisas Sobre Mim”,
que foi escrito ao longo deste último ano da minha vida que, como alguns devem
saber, foi dos mais emocionantes. Este livro fala um pouco de mim, das minhas
vivências, do meu crescimento, mas também de um plano mais metafísico, em que
abordo temas como os meus traumas, medos, ideias… bom, não quero estar a expor
muitos pormenores, para não estragar a experiência dos leitores. Alguém tem
questões?
(O vídeo corta. Surge o texto
“2015”. A imagem é de Guilherme a descer a rua, quando é interpelado por uma
repórter.)
Repórter – Guilherme
Gomes, Guilherme Gomes. Como reage às críticas que está a receber ao seu filme
“O Roubo do Quadro”?
Guilherme – Reajo com a
superioridade e a indiferença que um homem público tem de ter.
Repórter – Mas porque
é que resolveu fazer o filme assim?
Guilherme – Porque não
o pude fazer assado.
Repórter – Quem é que
não o deixou fazer assado?
Guilherme – Ah, eu não
posso permitir certas coisas. Não estamos a brincar com coisas sérias!
Repórter – Dizem as
más línguas que este filme foi uma tentativa frustrada da sua parte.
Guilherme – Eu quero
que as más línguas se fodam! Ponto final, parágrafo!
Repórter – E acha que
o público Português reagiu bem a esta estreia?
Guilherme – Eu quero
que o público Português se foda! E assim sucessivamente.
(O vídeo corta para Guilherme na
cama a falar com o Smurf. O plano é de cima.)
Guilherme – Porque é
que me decidiram perseguir a mim agora? Achas que foi por causa das alegações?
Tu sabes que nós só tiramos aquela foto com o Epstein porque ele nos pediu com
jeitinho! Ou será que descobriram a minha posição em relação ao
estado-terrorista de Israel? Ai, ai, Smurf… Não nos estou a ver a sair desta…
(Surge o texto “2019”. Guilherme
aparece com uma guitarra na mão, um bombo ao lado e um bloco de notas em cima
do joelho. Está a escrever o primeiro grande êxito dos Cantores Primários “Ser
Bom Cozinheiro”. A imagem corta para Guilherme num concerto – áudio do
“Cantores Primários AO VIVO!!!”. Corta para Guilherme, de camisa aberta, marcas
de batom e cabelo desajeitado - a entrar na traseira de um carro e a dizer ao
motorista para arrancar – ouvem-se gritos de fãs. Surge o texto “2022”.)
Narrador – 2022 marcou
o ponto de viragem da minha carreira. Nada seria igual depois daquela fatídica
noite de insónia…
(Guilherme surge deitado na cama, a
olhar para o tecto. Pega no relógio que está em cima da mesinha de cabeceira.)
Guilherme – 07:02h e
nada. Pff… Tenho de me entreter com alguma coisa!
(Guilherme levanta-se da cama e
abre o computador. Abre um Word e começa a escrever.)
Narrador – E é assim
que nascem as lendas. Em pouco mais de 20 minutos escrevi um texto sobre
palavras ridículas que ficou tão bom, que eu acreditei que tinha de ser visto
pelo Mundo inteiro. E que melhor forma de o fazer do que criando um blogue! Foi
assim que nasceu “A Psique de Guilherme” e o resto? É história!...
(Montagem de vídeos. Primeiro vídeo
de Guilherme a finalizar a imagem do “Há certas e determinadas palavras que
pronto, não é?” no Photoshop.
Segundo vídeo de Guilherme a gravar a mítica abertura da máquina de escrever.
Terceiro vídeo de Guilherme a montar o estaminé com a Webcam com que gravou o
primeiro vídeo.
Quarto, rápida montagem das costas de Guilherme com as diferentes T-shirts com
que gravou os primeiros vídeos do canal.
Tela preta. Surge o texto “2026”.
Quinto vídeo, regresso ao início, Guilherme a entrar no quarto, sons da
multidão a acalmarem. Carrega no ecrã do telemóvel, já montado no tripé, e
começa a falar.)
Guilherme – Olá,
pessoas! Tudo bem com vocês? Espero que sim! Sejam bem-vindos a mais uma
crónica d’A Psique, desta vez extremamente especial!
(Guilherme acaba de falar, vai até
ao telemóvel e corta o vídeo. Tela preta. Mensagem de “Parabéns à Psique”.
Fim.)

sinto-me: Exposto, vulnerável... e desconstruído.
ResponderEliminarmúsica: Michael Jackson - Smile