Eu sou Ateu. Defini-me assim aos 12 anos, quando percebi não ter Fé e comecei a discordar do funcionamento das religiões organizadas. Neste Mundo moderno, nunca fui perseguido, nunca fui ameaçado, nunca fui inquirido pelo Santo Ofício. Em contrapartida, sou olhado de lado, já sofri e continuo a sofrer tentativas de reconversão, e sou constantemente questionado como se a minha ausência de Fé me tornasse intelectual ou moralmente inferior. A discordância religiosa existe, e ainda bem, porque isso significa que há liberdade para professar qualquer crença que se deseje. O que não está bem é a presunção de que a descrença de um Ateu nada mais é que uma fase transitória e que ele, mais cedo ou mais tarde, acabará por reconhecer a suposta verdade da Fé e atingir o pináculo da existência Humana: acreditar em Deus!
O
que mais se vê, neste Mundo moderno, é tolerância religiosa a dar com um pau.
Todos os crentes aceitam as visões de Mundo que se desviam das suas, todos
embarcaram numa onda de abertura e progressismo Franciscano. Os Cristãos novos,
esses então, são os primeiros a dizer a um Ateu que a sua condição de descrente
está enquadrada nos seus princípios de aceitação do próximo; o grande problema
é que, de um jeito hipocritamente tolerante ou tolerantemente hipócrita, não
deixam de considerar, no seu íntimo, que “está tudo bem em não acreditares, mas
um dia vais conseguir chegar a Deus”. Assim sendo, entre a intolerância
encapotada dos Grupos de Jovens e a intolerância explosiva de um velho do
Restelo, prefiro a segunda opção que, apesar de tudo, a sinceridade presente na
promessa de um final ardente para os hereges ainda me parece mais Católica que
a falsidade de uma máscara benigna que camufla a mesma ideia de que se tem uma
visão de Mundo superior. O problema aqui presente é justamente a tentativa
persistente de conversão e a desvalorização da capacidade intelectual de alguém
que não partilha o amigo imaginário connosco. Está tudo bem em considerar que o
outro está enganado; o que não está bem é considerar que ele é inferior por
isso.
Cada pessoa tem o direito a viver segundo a sua religião e o
seu conjunto de crenças, mas não a transformar automaticamente os seus
mandamentos e pressupostos morais em obrigações para os restantes cidadãos. Por
princípio, considero que a liberdade de escolha e de autodeterminação
individual – ou seja, a ideia de que cada pessoa deve poder tomar decisões
sobre a própria vida, desde que não prejudique a vivência de terceiros – são
dos direitos mais importantes e, simultaneamente, mais atacados que existem. A
influência da moralidade religiosa assume grande parte da responsabilidade
neste ataque, tanto pela sua proeminência na Sociedade, como pela sua
dificuldade em perceber a diferença entre a legalidade de algo e a sua
imposição ou obrigatoriedade. Dou como exemplo, mais uma vez, o aborto e a
eutanásia: o facto de eles serem permitidos apenas implica que, havendo alguém
que queira aceder a esse direito, essa pessoa tem a possibilidade de o fazer;
alguém alheio que considere estas práticas moralmente inaceitáveis pode,
simplesmente, não recorrer a essas opções, sem impedir que outros o façam. O
que isto implica é que a desaprovação moral de uma religião não constitui, por
si só, uma justificação suficiente para restringir legalmente as escolhas e a
autonomia de quem não partilha o mesmo sistema de crenças, ou seja, e em
linguagem corriqueira, tu não tens o direito de meter o nariz nas escolhas que
outra pessoa faz para si só porque elas vão contra aquilo em que TU acreditas.
Se começarmos a seguir esta linha de raciocínio, a tolerância e o respeito
tornam-se coisas bem mais fáceis e acessíveis!
O
grande passo a dar na sequência da construção de uma tolerância interpessoal é
o reforço de um velho princípio Iluminista, herdeiro da Revolução Francesa, que
é o da Laicidade do Estado. Em termos simples, este é o princípio político que
defende que o Estado deve ser independente das instituições religiosas e não
deve atribuir a nenhuma delas autoridade política especial em virtude da sua
condição religiosa. Em teoria, a maior parte das Democracias Ocidentais
estabeleceram-se sobre esta ideia de Laicidade; o grande problema é que, na
prática, nem sempre se verifica isto e, como agravante, ainda é possível
perceber um desequilíbrio de privilégios entre organizações religiosas, o que é
simultaneamente danoso e revoltante. Num Estado de Direito, nenhuma religião
deve beneficiar de privilégios institucionais ou fiscais apenas por ser uma religião.
As organizações religiosas, as seitas e os cultos devem, sim, ser tributadas
segundo as mesmas regras que são aplicadas a organizações comparáveis - devem
pagar IMI sobre os seus edifícios, imóveis e locais de culto, por exemplo -,
porque elas têm de estar numa situação de igualdade perante a Lei. Em Portugal,
há um flagrante favorecimento da Igreja Católica, como é possível concluir a
partir da existência, por exemplo, da Concordata de 2004, um acordo entre o
Estado Português e o Vaticano que confere à Igreja um tratamento privilegiado
em relação às restantes religiões. Isto verifica-se, na prática, através da
forte presença deste organismo na Educação, nas Forças Armadas e na Justiça, em
que a Igreja possui autonomia jurídica interna – o tão falado Direito Canónico
– que, por vezes, se sobrepõe à Lei geral e decide a eventual produção de
efeitos civis. Isto ultrapassa o princípio orientador da liberdade religiosa
(que, volto a reforçar, deve ser defendido), no sentido em que se converte num
fundamento para conceder às instituições religiosas um estatuto superior, em
certos campos, ao das restantes organizações da sociedade, o que contradiz
aquele princípio de autodeterminação individual que eu vinha a defender. Para
existir a verdadeira liberdade religiosa, tem de se exigir a neutralidade
institucional e a igualdade perante o Estado!
Ninguém
deve ser perseguido por acreditar, mas também ninguém deve perder direitos por
não o fazer. Que uma coisa fique clara: a duvidosa moralidade do Cardeal
Cerejeira não é para aqui chamada, e os Senhores da Lei que tenham consciência
de que o Papa não é mais que o Dalai Lama e o Dalai Lama não é mais que eu. A
Lei tem de proteger todos os cidadãos por igual, nunca impondo a todos os
princípios éticos de uma religião particular. A liberdade religiosa só se torna
compatível com a liberdade individual quando nenhuma crença se transforma
automaticamente numa obrigação legal para toda a Sociedade. Por isso, sim ao
aborto e à eutanásia; sim à igualdade de género; sim à igualdade de direitos e
à libertação sexual; não ao racismo, à xenofobia e à ideia de superioridade
moral e cultural; sim ao comer carne na Quaresma; sim à igualdade de todas as
religiões perante a Lei; sim à cobrança de impostos à Igreja Católica; sim à
retirada dos organismos religiosos de todos os órgãos judiciais e executivos do
Estado; e um enorme sim à defesa da Laicidade e à luta pela separação e pelo
afastamento da Religião e do Estado!

sinto-me: Mais Ateu do que nunca!
ResponderEliminarmúsica: Sex Pistols - Sod In Heaven