23/10/2026

Doble-6 (Guião)

 (Cena contínua, câmara vai rodando no centro dos actores; faz travagem abrupta na segunda vez que pára no Gui.)

Guilherme – Perceberam as regras?

Carolina – Desculpa, este jogo parece uma seca!

Alice – Anda lá, vai ser giro!

Ema – E pode ser que recebas uma visitinha, durante a noite!

Guilherme – Alguma de vocês tem perguntas?

(Acaba a cena contínua; foco em Alice. Depois da fala dela, a câmara vira rapidamente para Gui, de novo para Alice e, no fim, novamente para Gui.)

Alice – Mas o jogo está mesmo… amaldiçoado?

Guilherme – Quer dizer, o senhor da loja de antiguidades estava-me a tentar convencer que sim, mas é só a porcaria de um jogo! Claro que não está!

Alice (meia convencida, meia assustada) – OK…

Guilherme – Vamos a isto!

(Visão acima do tabuleiro de jogo. Vão lançado os dados e pegando nas cartas. Câmara vai subindo lentamente e rodando. Vão surgindo os nomes dos actores e, no fim, o título.)

Guilherme – Inês, é a tua vez.

Carolina (pega numa carta) –

“Na velha montanha dourada

Os cães ladram ao timbalão

A anciã melodia dos tambores

Salva os pobres de coração

 

Se a salvação pretenderes

O doble de 6 calhará

Mas se não for forte de alma

O jogador morrerá”

“Lance os dados. Para se salvar, terá de sair o doble de 6.” OK! (lança os dados e não sai D6)

Ema – Bom, parece que vais morrer!

(Todos riem da situação; Carolina com um riso nervoso, olhando em volta. Corta para uma cena de noite, com Carolina a sair da casa de banho para se ir deitar. Deita-se na cama e fecha os olhos. De trás dela, surge uma sombra. Foco na cara dela, com uma mão a surgir para lhe tapar a boca. Ela abre os olhos em pânico/surpresa. Corta para o dia seguinte, com o quarto dela fechado, com fitas da polícia, e o corpo metido dentro de um saco. Chega Guilherme.)

Guilherme – Então, o que aconteceu?

Alice – A polícia suspeita que tenha sido um homicídio, só que ainda não há certezas de nada. Mas quem é que iria fazer uma coisa destas à Inês?

Ema (em tom de gozo) – Pode ter sido alguma assombração, por causa do jogo de ontem!

Guilherme – Sim, está bem! A mim também me saiu uma carta a dizer que me ia crescer uma cauda e, até agora, nada! Mas que foi uma coincidência daquelas, foi!

Alice (olhando para dentro do quarto/começa com close-up, vai afastando) – Pobre Inês! Vais deixar saudades, miúda!

(Cena na casa de banho de Guilherme, com ele na sanita. Começam a ouvir-se sussurros.)

Carolina – Vasco! Vasco!

Guilherme – Quem está aí?

Carolina – Vasco!

Guilherme – Quem está aí, porra?

Carolina – Já não te lembras de mim, Vasco?

Guilherme – Não estou a gostar nada da brincadeira! Quem está aí?

Carolina – A sério que já não reconheces a voz da tua velha amiga Inês?

Guilherme – Mas… mas a Inês morreu!

Carolina – Será que morreu mesmo?

Guilherme – Claro que morreu! Eu vi o corpo dela com os meus próprios olhos!

(Algo que estava em cima do lavatório é atirado com violência para cima de Guilherme.)

Carolina – Estou morta, é isso?

Guilherme – O que é que se passa? AJUDA!

(Outra cena na cozinha de Ema, onde ela está a lanchar.)

Carolina – Já nem sequer me chamas para lanchar em tua casa, Laura?

Ema (a medo) – Inês? És tu?

Carolina – Claro, quem mais seria? A estúpida da Mónica? Ou a gorda da Fabiana? Ah, espera, tu és muito amiga delas, não és? Pode ser que tenhas uma surpresinha!...

Ema – Não, é impossível! Eu estou a alucinar! Tu não és real!

Carolina – Não sou real? Hum, vamos ver…

(Um pão começa a flutuar à frente da cara da Ema, que assiste perplexa. Corta para uma cena no quarto da Alice, que está deitada na cama.)

Carolina – Diana, só faltas tu.

(Alice olha em volta, meia confusa, mas pensa que não é nada.)

Carolina – Porra, Diana! Só me dás trabalho!

(Os lençóis da Alice começam a mexer-se loucamente, e ela começa aos gritos.)

Alice – AAAAAAHHHHHH!

(Todos os três encontram-se na rua. Vem um de cada lado e, quando chegam perto uns dos outros, dizem em uníssono…)

Todos – Temos de nos livrar da Inês!

(Cena contínua com Guilherme a remexer em coisas, gravada de dentro de vários móveis, com Ema e Alice atrás dele.)

Alice – Como assim o jogo é real?

Guilherme – Não sei, mas agora parece que vamos ter de lidar com ele!

Ema – Mas não tinhas dito que era tudo uma aldrabice?

Guilherme – Tinha, porque estava inteiramente convencido de que era! (pega na caixa do jogo; câmara passa para a parte de fora do móvel) E espero sinceramente que haja aqui alguma coisa que nos explique como se faz um exorcismo!

(Pegam na caixa e pousam-na na mesa. Guilherme começa a vasculhar, ainda com Alice e Ema atrás dele. Encontra o manual de instruções.)

Guilherme – OK. Exorcismos, exorcismos… Ah, aqui está! “Como fazer um exorcismo”! “Uma vez que todos os espíritos se comportam e manifestam de formas diferentes, cada exorcismo é um exorcismo. Desta feita, recomenda-se a visita ao xamã da Montanha Dourada.” (todos ficam confusos, Guilherme vira a página) Ah, está aqui a morada!

Alice – Não sabia que a Majora trabalhava com xamãs.

Ema – Isto é da Majora?

Guilherme – Garotas, foco! Temos que perceber como é que se chega a este xamã!

(Montagem dos três a caminharem pelo meio de matos, enquanto a voz de Guilherme a ler se ouve de fundo.)

Guilherme –

     “O caminho perdido terás de levar

     Se a resposta final quiseres encontrar

     Na cascata das ideias passa mansinho

     E chegarás por fim ao adivinho.”

 

Alice (já à porta do retiro do xamã) – Muito mais simples do que pensei que fosse!

Guilherme – OK, agora diz para bater três vezes na “árvore da sabedoria eterna”. (bate)

Rui – QUEM ME INCOMODA?

Guilherme (engolindo em seco) – Hum… Ele-Que-Tudo-Sabe, somos apenas um grupo de três jovens que vimos em busca de respostas, pois temos sido amaldiçoados pelo espírito da nossa amiga que faleceu!

Rui – Oh, então entrem! Pensei que fossem os gajos das operadoras!

(Os três trocam olhares de confusão e surpresa.)

Guilherme – Entraremos, sim!

(Lá dentro, deparam-se com Rui sentado com as pernas cruzadas, envergando colares e um chapéu cerimonial.)

Rui – Prazer em conhecer-vos! O meu nome é Marco, mas podem-me tratar por Pipas, que isso do “Ele-Que-Tudo-Sabe” já é antiquado. Então, ao que vêm?

Alice – Sr. Pipas, a nossa amiga Inês morreu depois de jogarmos ao “Sumpa”, aquele jogo de tabuleiro, e agora está-nos a amaldiçoar na nossa vida privada.

Rui – Pois, pois, pois… Um caso de possessão por intermédio de jogo… Isso é fácil de resolver, mas precisam de paciência!

Ema – Nós temos, diga-nos só como se faz, por favor!

Rui – OK, estejam atentos.

(A acompanhar a narração, surgem imagens dos jovens a fazer o que o xamã vai indicando.)

Rui – Primeiro, precisam de fazer um círculo de giz no chão, em frente a um espelho - não precisa de ser muito grande, só tem de caber lá dentro o tabuleiro de jogo. Depois, acendam uma vela entre o círculo e o espelho. Por fim, para invocarem o espírito da vossa amiga, tem de vos sair um doble de 6.

(Corta abruptamente para os jovens.)

Guilherme – Qual é a vossa fixação com o doble de 6?

Rui – Sei lá! É fixe, quando saem os dois dados iguais… Mas estava a dizer…

(Volta a cortar para a montagem.)

Rui – Lançam o doble de 6, e a vossa amiga surgirá!

(A voz do xamã esvai-se. Cena dos dados a saltar, intercalada com as caras de nervosismo dos três, até que foca de cima num doble de 6. Ventania e luzes a piscar, e surge o espírito à frente deles.)

Carolina (com a voz alterada e os olhos brancos) – QUEM ME INVOCA NUM DIA DESTES?!

(A imagem pára e ouve-se a voz da Ema.)

Ema – Espera aí! Mas e para a exorcizarmos, como é?

(Foca, de volta, na cara do xamã.)

Rui – Têm de a tentar convencer a deixar-vos em paz, não têm alternativa. Os espíritos tendem a não ir embora com grande facilidade, se não os levarmos com calma…

(Corta, novamente, para a cena do exorcismo.)

Alice – Inês, somos nós, os teus amigos!

Carolina – AMIGOS? EU NÃO TENHO AMIGOS!

Guilherme – Então porque é que nos tens andado sempre a aparecer?

Carolina – PORQUE VOS ODEIO! VOCÊS FIZERAM-ME A VIDA NEGRA DESDE O MOMENTO EM QUE VOS CONHECI! EU ERA SEMPRE O ALVO DE TUDO, ERA SEMPRE O BODE EXPIATÓRIO, MAS AGORA VOU-ME VINGAR!

Guilherme – Inês, isso não é verdade!

(A imagem pára e ouve-se a voz de Alice.)

Alice – Mas ela não pode simplesmente contra-atacar?

(Cara do xamã.)

Rui – Não, os espíritos não têm esse poder!

(Cena do exorcismo.)

Carolina – AI NÃO? ENTÃO VOU-TE PÔR UMA MALDIÇÃO! DE AQUI POR DIANTE, SEMPRE QUE FORES AO GINÁSIO, VAIS TER DE VER, MESMO SEM QUERERES, OS PÉNIS DE VÁRIOS SENHORES NO BALNEÁRIO!

Guilherme – Bom, isso também já acontece, portanto não é assim tão mau.

Ema – Eles têm assim tanto à-vontade?

Guilherme – Juro-te! Não percebo como é que eles andam ali de forma tão natural!

Carolina – SILÊNCIO! JÁ ME ESTOU A FARTAR DOS VOSSOS JOGUINHOS! ATÉ EU ME VINGAR POR COMPLETO, VOCÊS NUNCA SE VÃO VER LIVRES DE MIM, OU NÃO ME CHAME EU INÊS LEONOR DA SILVA FRANCO!

Alice – Mas tu não te chamas Inês Leonor. Tu és Inês Beatriz!

Carolina – UPS!

(O espírito explode e, no lugar dele, ficam apenas as suas roupas amontoadas no chão.)

Ema – Foi isto?

Alice – Eh, parece que sim…

Guilherme – Vamos comer qualquer coisa?

Ema – Vamos!

(Corta para uma cena dos três amigos num cemitério. Ouve-se a voz do xamã.)

Rui – E não se esqueçam do mais importante! Para manter o espírito da vossa amiga aprisionado, devem sempre ter uma vela acesa no seu jazigo! Só assim poderão ter a certeza de que ela não voltará para vos amaldiçoar!

(Guilherme pousa uma vela acesa no jazigo da amiga. A câmara acompanha todo o movimento, sem cortes, e eles ficam a ser filmados de baixo.)

Guilherme – Pronto, Inês! Já podes descansar em paz! Até um dia, amiga!

(Todos os três viram costas e começam a andar. Corta para a vela no sepulcro. Há uma rajada de vento que a apaga. De trás dela, pela terra, surge uma mão. Corta para preto. Fim!)



1 comentário:

  1. sinto-me: Excitado por ver esta obra ganhar vida ao fim de um ano e meio!
    música: Carlos Alberto Moniz feat. Maria do Amparo - Companheiro Vasco

    ResponderEliminar