(Cena contínua, câmara vai rodando no centro dos actores; faz travagem abrupta na segunda vez que pára no Gui.)
Guilherme – Perceberam
as regras?
Carolina – Desculpa,
este jogo parece uma seca!
Alice – Anda lá,
vai ser giro!
Ema – E pode ser
que recebas uma visitinha, durante a noite!
Guilherme –
Alguma
de vocês tem perguntas?
(Acaba a
cena contínua; foco em Alice. Depois da fala dela, a câmara vira rapidamente
para Gui, de novo para Alice e, no fim, novamente para Gui.)
Alice – Mas o jogo
está mesmo… amaldiçoado?
Guilherme –
Quer
dizer, o senhor da loja de antiguidades estava-me a tentar convencer que sim,
mas é só a porcaria de um jogo! Claro que não está!
Alice (meia
convencida, meia assustada) – OK…
Guilherme –
Vamos
a isto!
(Visão
acima do tabuleiro de jogo. Vão lançado os dados e pegando nas cartas. Câmara
vai subindo lentamente e rodando. Vão surgindo os nomes dos actores e, no fim,
o título.)
Guilherme –
Inês,
é a tua vez.
Carolina (pega
numa carta) –
“Na
velha montanha dourada
Os
cães ladram ao timbalão
A
anciã melodia dos tambores
Salva
os pobres de coração
Se
a salvação pretenderes
O
doble de 6 calhará
Mas
se não for forte de alma
O
jogador morrerá”
“Lance os
dados. Para se salvar, terá de sair o doble de 6.” OK! (lança os dados e não
sai D6)
Ema – Bom, parece
que vais morrer!
(Todos riem
da situação; Carolina com um riso nervoso, olhando em volta. Corta para uma
cena de noite, com Carolina a sair da casa de banho para se ir deitar. Deita-se
na cama e fecha os olhos. De trás dela, surge uma sombra. Foco na cara dela,
com uma mão a surgir para lhe tapar a boca. Ela abre os olhos em
pânico/surpresa. Corta para o dia seguinte, com o quarto dela fechado, com
fitas da polícia, e o corpo metido dentro de um saco. Chega Guilherme.)
Guilherme –
Então,
o que aconteceu?
Alice – A polícia
suspeita que tenha sido um homicídio, só que ainda não há certezas de nada. Mas
quem é que iria fazer uma coisa destas à Inês?
Ema (em
tom de gozo) – Pode ter sido alguma assombração, por causa do jogo
de ontem!
Guilherme –
Sim,
está bem! A mim também me saiu uma carta a dizer que me ia crescer uma cauda e,
até agora, nada! Mas que foi uma coincidência daquelas, foi!
Alice (olhando
para dentro do quarto/começa com close-up, vai afastando) – Pobre Inês!
Vais deixar saudades, miúda!
(Cena na
casa de banho de Guilherme, com ele na sanita. Começam a ouvir-se sussurros.)
Carolina – Vasco!
Vasco!
Guilherme –
Quem
está aí?
Carolina – Vasco!
Guilherme –
Quem
está aí, porra?
Carolina – Já não te
lembras de mim, Vasco?
Guilherme –
Não
estou a gostar nada da brincadeira! Quem está aí?
Carolina – A sério que
já não reconheces a voz da tua velha amiga Inês?
Guilherme –
Mas…
mas a Inês morreu!
Carolina – Será que morreu
mesmo?
Guilherme –
Claro
que morreu! Eu vi o corpo dela com os meus próprios olhos!
(Algo que
estava em cima do lavatório é atirado com violência para cima de Guilherme.)
Carolina – Estou
morta, é isso?
Guilherme –
O
que é que se passa? AJUDA!
(Outra cena
na cozinha de Ema, onde ela está a lanchar.)
Carolina – Já nem
sequer me chamas para lanchar em tua casa, Laura?
Ema (a
medo) – Inês? És tu?
Carolina – Claro, quem
mais seria? A estúpida da Mónica? Ou a gorda da Fabiana? Ah, espera, tu és
muito amiga delas, não és? Pode ser que tenhas uma surpresinha!...
Ema – Não, é
impossível! Eu estou a alucinar! Tu não és real!
Carolina – Não sou
real? Hum, vamos ver…
(Um pão
começa a flutuar à frente da cara da Ema, que assiste perplexa. Corta para uma
cena no quarto da Alice, que está deitada na cama.)
Carolina – Diana, só
faltas tu.
(Alice olha
em volta, meia confusa, mas pensa que não é nada.)
Carolina – Porra,
Diana! Só me dás trabalho!
(Os lençóis
da Alice começam a mexer-se loucamente, e ela começa aos gritos.)
Alice – AAAAAAHHHHHH!
(Todos os
três encontram-se na rua. Vem um de cada lado e, quando chegam perto uns dos
outros, dizem em uníssono…)
Todos – Temos de
nos livrar da Inês!
(Cena
contínua com Guilherme a remexer em coisas, gravada de dentro de vários móveis,
com Ema e Alice atrás dele.)
Alice – Como assim
o jogo é real?
Guilherme –
Não
sei, mas agora parece que vamos ter de lidar com ele!
Ema – Mas não
tinhas dito que era tudo uma aldrabice?
Guilherme –
Tinha,
porque estava inteiramente convencido de que era! (pega na caixa do jogo;
câmara passa para a parte de fora do móvel) E espero sinceramente que haja
aqui alguma coisa que nos explique como se faz um exorcismo!
(Pegam na
caixa e pousam-na na mesa. Guilherme começa a vasculhar, ainda com Alice e Ema
atrás dele. Encontra o manual de instruções.)
Guilherme –
OK.
Exorcismos, exorcismos… Ah, aqui está! “Como fazer um exorcismo”! “Uma vez que
todos os espíritos se comportam e manifestam de formas diferentes, cada
exorcismo é um exorcismo. Desta feita, recomenda-se a visita ao xamã da
Montanha Dourada.” (todos ficam confusos, Guilherme vira a página) Ah,
está aqui a morada!
Alice – Não sabia
que a Majora trabalhava com xamãs.
Ema – Isto é da
Majora?
Guilherme –
Garotas,
foco! Temos que perceber como é que se chega a este xamã!
(Montagem
dos três a caminharem pelo meio de matos, enquanto a voz de Guilherme a ler se
ouve de fundo.)
Guilherme –
“O caminho perdido terás de levar
Se a resposta final quiseres encontrar
Na cascata das ideias passa mansinho
E chegarás por fim ao adivinho.”
Alice (já
à porta do retiro do xamã) – Muito mais simples do que pensei
que fosse!
Guilherme –
OK,
agora diz para bater três vezes na “árvore da sabedoria eterna”. (bate)
Rui – QUEM ME
INCOMODA?
Guilherme (engolindo
em seco) – Hum… Ele-Que-Tudo-Sabe, somos apenas um grupo de
três jovens que vimos em busca de respostas, pois temos sido amaldiçoados pelo
espírito da nossa amiga que faleceu!
Rui – Oh, então
entrem! Pensei que fossem os gajos das operadoras!
(Os três
trocam olhares de confusão e surpresa.)
Guilherme –
Entraremos,
sim!
(Lá dentro,
deparam-se com Rui sentado com as pernas cruzadas, envergando colares e um
chapéu cerimonial.)
Rui – Prazer em
conhecer-vos! O meu nome é Marco, mas podem-me tratar por Pipas, que isso do
“Ele-Que-Tudo-Sabe” já é antiquado. Então, ao que vêm?
Alice – Sr. Pipas,
a nossa amiga Inês morreu depois de jogarmos ao “Sumpa”, aquele jogo de
tabuleiro, e agora está-nos a amaldiçoar na nossa vida privada.
Rui – Pois, pois,
pois… Um caso de possessão por intermédio de jogo… Isso é fácil de resolver,
mas precisam de paciência!
Ema – Nós temos,
diga-nos só como se faz, por favor!
Rui – OK, estejam
atentos.
(A
acompanhar a narração, surgem imagens dos jovens a fazer o que o xamã vai
indicando.)
Rui – Primeiro,
precisam de fazer um círculo de giz no chão, em frente a um espelho - não
precisa de ser muito grande, só tem de caber lá dentro o tabuleiro de jogo.
Depois, acendam uma vela entre o círculo e o espelho. Por fim, para invocarem o
espírito da vossa amiga, tem de vos sair um doble de 6.
(Corta
abruptamente para os jovens.)
Guilherme –
Qual
é a vossa fixação com o doble de 6?
Rui – Sei lá! É
fixe, quando saem os dois dados iguais… Mas estava a dizer…
(Volta a
cortar para a montagem.)
Rui – Lançam o
doble de 6, e a vossa amiga surgirá!
(A voz do
xamã esvai-se. Cena dos dados a saltar, intercalada com as caras de nervosismo
dos três, até que foca de cima num doble de 6. Ventania e luzes a piscar, e
surge o espírito à frente deles.)
Carolina (com
a voz alterada e os olhos brancos) – QUEM ME INVOCA NUM DIA
DESTES?!
(A imagem
pára e ouve-se a voz da Ema.)
Ema – Espera aí!
Mas e para a exorcizarmos, como é?
(Foca, de
volta, na cara do xamã.)
Rui – Têm de a
tentar convencer a deixar-vos em paz, não têm alternativa. Os espíritos tendem
a não ir embora com grande facilidade, se não os levarmos com calma…
(Corta,
novamente, para a cena do exorcismo.)
Alice – Inês, somos
nós, os teus amigos!
Carolina – AMIGOS? EU
NÃO TENHO AMIGOS!
Guilherme –
Então
porque é que nos tens andado sempre a aparecer?
Carolina – PORQUE VOS
ODEIO! VOCÊS FIZERAM-ME A VIDA NEGRA DESDE O MOMENTO EM QUE VOS CONHECI! EU ERA
SEMPRE O ALVO DE TUDO, ERA SEMPRE O BODE EXPIATÓRIO, MAS AGORA VOU-ME VINGAR!
Guilherme –
Inês,
isso não é verdade!
(A imagem
pára e ouve-se a voz de Alice.)
Alice – Mas ela não
pode simplesmente contra-atacar?
(Cara do
xamã.)
Rui – Não, os
espíritos não têm esse poder!
(Cena do
exorcismo.)
Carolina – AI NÃO?
ENTÃO VOU-TE PÔR UMA MALDIÇÃO! DE AQUI POR DIANTE, SEMPRE QUE FORES AO GINÁSIO,
VAIS TER DE VER, MESMO SEM QUERERES, OS PÉNIS DE VÁRIOS SENHORES NO BALNEÁRIO!
Guilherme –
Bom,
isso também já acontece, portanto não é assim tão mau.
Ema – Eles têm
assim tanto à-vontade?
Guilherme –
Juro-te!
Não percebo como é que eles andam ali de forma tão natural!
Carolina – SILÊNCIO!
JÁ ME ESTOU A FARTAR DOS VOSSOS JOGUINHOS! ATÉ EU ME VINGAR POR COMPLETO, VOCÊS
NUNCA SE VÃO VER LIVRES DE MIM, OU NÃO ME CHAME EU INÊS LEONOR DA SILVA FRANCO!
Alice – Mas tu não
te chamas Inês Leonor. Tu és Inês Beatriz!
Carolina – UPS!
(O espírito
explode e, no lugar dele, ficam apenas as suas roupas amontoadas no chão.)
Ema – Foi isto?
Alice – Eh, parece
que sim…
Guilherme –
Vamos
comer qualquer coisa?
Ema – Vamos!
(Corta para
uma cena dos três amigos num cemitério. Ouve-se a voz do xamã.)
Rui – E não se
esqueçam do mais importante! Para manter o espírito da vossa amiga aprisionado,
devem sempre ter uma vela acesa no seu jazigo! Só assim poderão ter a certeza
de que ela não voltará para vos amaldiçoar!
(Guilherme
pousa uma vela acesa no jazigo da amiga. A câmara acompanha todo o movimento,
sem cortes, e eles ficam a ser filmados de baixo.)
Guilherme –
Pronto,
Inês! Já podes descansar em paz! Até um dia, amiga!
(Todos os
três viram costas e começam a andar. Corta para a vela no sepulcro. Há uma
rajada de vento que a apaga. De trás dela, pela terra, surge uma mão. Corta
para preto. Fim!)
sinto-me: Excitado por ver esta obra ganhar vida ao fim de um ano e meio!
ResponderEliminarmúsica: Carlos Alberto Moniz feat. Maria do Amparo - Companheiro Vasco