03/10/2026

Mista en place

 Era para mandar um beijinho à Daniela e ao Fernando, que se casaram ontem, e foi uma festa muito bonita! Pronto, é só isso…

 

O Mundo Universitário tem destas coisas giras, de nos ensinar situações e o camandro… de igual forma, também é um local onde me têm sido levantadas questões como a que vos trago hoje – que, curiosamente, não partiu de mim, mas da Vânia, daí não ser tão pertinente como a da semana passada - e que diz respeito à composição de uma sande mista. Está tudo preparado para a viagem? Então vamos a isto.

A sande mista é um pilar da nossa Sociedade consumista, uma peça insubstituível do imaginário gastronómico nacional. Quer seja feita com pão, croissant ou massa folhada/levedada, a sande mista constitui uma alternativa segura, nutritiva e deliciosa a qualquer pastel ou pão com manteiga que nos seja apresentado. Agora, o que faz de uma sande mista uma sande mista? O que é que, na natureza desse vívere, a faz ser o que é? Que ingredientes definem a “misticidade” de uma sande?

A resposta mais tradicional é a de que uma sande mista leva fiambre e queijo. O Priberam corrobora esta tese, na 5ª definição da palavra “misto”, acrescentando, porém, o elemento do presunto como alternativa ao fiambre, algo que não considero propriamente correcto, uma vez que, considerando o seu sentido lato e as suas adaptações, não vejo com bons olhos a colocação desta carne fria curada num pastel como o croissant. Ainda assim, o queijo e o fiambre são, então, definidos como os elementos centrais de uma sande mista. Pela primeira vez, todos chegamos a um consenso em relação a um assunto, e o Mundo ficou um lugar mais feliz…

 

- Fade out, fade in –

 

Infelizmente, não é bem assim, porque o próprio Priberam também dá a esta palavra, em último lugar, a definição “Conjunto formado por duas ou mais coisas diferentes”. O que isto vem implicar é que, não só o queijo e o fiambre não são imperativos para uma sande ser classificada desta forma, como também que uma sande pode ter mais de dois pålegg (que é uma palavra Norueguesa que designa tudo o que se pode colocar sobre ou dentro de um pão) e ainda assim ser considerada mista! Se formos a pensar racionalmente, faz sentido a palavra “mista” não ter apenas este significado – afinal de contas, uma casa-de-banho mista não é um lavabo construído com lacticínios e produtos cárneos industrializados, amiúde prensados e fatiados, que se obtêm pela cozedura e salmoura de carne de porco! -, mas o certo é que isso provoca alguma estranheza, justamente por estarmos tão habituados a pensar a palavra desta forma. Tendo isto em conta, aquilo de que precisamos é de organização e rigor científico na categorização da sande mista.

Primeiramente, precisamos de definir de uma vez por todas quais são os pontos essenciais e que não podem, de maneira alguma, ser removidos da sande, sob o prejuízo de ela deixar de ser mista. Tendo em conta a hegemonia e a tradição do fiambre e queijo, acredito que eles não podem nunca ser retirados em conjunto, ou seja, uma sande pode até não levar fiambre, mas tem necessariamente de levar queijo, e o contrário também. O elemento que sai pode ser substituído por qualquer outro que faça sentido (nunca seria aceitável considerar uma sande de queijo e Nutella como mista, por exemplo), não tendo necessariamente de ser um seu derivado nem que fazer parte do mesmo grupo alimentar (podemos ter, por esta lógica, uma sande mista de fiambre e chourição).

A segunda coisa que eu acho importante legislar é o fim daquela ideia de que uma sande só é mista se tiver dois ingredientes e nada mais. Na minha ideia, pode, sim, existir uma sande com três ou mais ingredientes – desde que se cumpra o primeiro pressuposto – e esta continuar a ser mista, porque o simples facto de haver a articulação de várias realidades num mesmo pão já é suficiente para lhe conferir essa classificação. Da mesma forma, tem de ser uma mistura lógica, não sendo aceites aberrações alimentares como uma sande de fiambre, queijo e geleia ou uma croissant com alheira, queijo e marmelada. Haja um pouco de decência!

Por fim, considero imperativo que o consenso social passe a considerar a sande-base de fiambre e queijo como a norma, e que a partir daí se estudem e considerem as diferentes variações. Para isto, principalmente na área da Restauração, é essencial que tanto patrões como trabalhadores se consciencializem de que quando um cliente pede uma sande mista, ele se está a referir a uma sande de fiambre e queijo, sendo importante evitar a solicitação de mais pormenores por parte do prestador de serviços e, de igual forma, garantir que o requerente é claro quando procura uma sande com outros ingredientes para além destes, altura em que, aí sim, procede à listagem completa dos pålegg.

Talvez assim, e pela primeira vez, todos cheguemos a um consenso em relação a um assunto, e o Mundo fique um lugar mais feliz… Até à próxima!



1 comentário:

  1. sinto-me: Informado, classificado e com fome...
    música: Tino de Rans - Pão Pão, Fiambre Fiambre

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